Novembro Negro

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Foto: Matheus Rodrigues/G1

O Mês da Consciência Negra – novembro -, não é um tempo apenas para a “consciência” dos negros, como alguns pensam. Trata-se de muito mais: deve ser um período para a sociedade brasileira refletir sobre si mesma, sobre os seus valores fundantes e, sobretudo, sobre como os diversos grupos étnico-raciais são inseridos no campo da cidadania no país.

Foi trabalhoso para o Movimento Negro quebrar as festividades do 13 de Maio – data em que se tecia loas a uma liberdade que não foi sucedida por uma cidadania efetiva –, transferindo para Novembro, mês em que Zumbi dos Palmares pagou com a vida o sonho de uma efetiva liberdade há 321 anos.

Nos idos do século 17, os Palmarinos enfrentaram com lanças de pau os canhões dos bandeirantes paulistas. Isso após viverem uma efetiva república socialista natural por cerca de um século. Estou falando dos séculos 16 e 17. Marx nasce, desenvolve sua teoria e morre num único século – o 19 -, mais de 200 anos depois de Palmares. A mais longa experiência socialista – a soviética – durou 70 anos e deu no que deu: Vladimir Putin.

O racismo, a hierarquização étnica, as desigualdades – profundas – raciais, tornam o Brasil um baluarte renitente das desigualdades no mundo. Tão vastas que nos tornam uma república indecente. São injustiças naturalizadas pelo que o País se tornou.

Ao ser inserido no Panteão dos Heróis Nacionais, Zumbi é, finalmente, reconhecido pelo autêntico sentido de sua vida: a libertação da maioria da população que vivia no Brasil naqueles tempos – um herói autêntico, martirizado em prol do coletivo. Zumbi foi um herói regatado a duras penas pelo Movimento Negro. Um “negão pesado”, como brinca Sueli Carneiro, até ser posto onde devia estar desde sempre.

Não foi fácil transferir uma data já consagrada como o 13 de Maio para o 20 de Novembro. Neste dia é feriado em capitais como Porto Alegre, Curitiba, Rio e São Paulo; mas não em Salvador – a Roma Negra!

Negras e Negros em Movimento

Durante todo esse mês o Brasil profundo comemora Zumbi e reflexões importantes são feitas. Temos desfiles de moda, capoeira, shows musicais, saraus poéticos; enfim: toda a gama da rica cultura negra brasileira impregnada por todos os poros da nação. Temos ainda debates frutíferos sobre cidadania: violência, feminismo negro – um dos mais promissores debates desse início de século – e empreendedorismo.

Todavia, o principal debate que eu impulsiono é o do desenvolvimento. Não apenas eu, mas um número expressivo de ativistas – especialmente gente jovem. Desenvolvimento como instrumento para a cidadania de todos; evidente. Porque crescimento econômico o Brasil já experimentou e excluiu a população negra com zelo. Esse debate precisa ser aprofundado num momento de regressão de direitos. Proporcionalmente, os negros pagam mais impostos – nem todos sabem disso. Por outro lado, não há retorno em políticas públicas – especialmente na manutenção de creches, escolas infantis e ensino básico em período integral – temas que não podem mais sair de nossa agenda. Reparem que a nossa reflexão segue na contramão do estado mínimo que está sendo presentemente defendido e executado.

Termino esse texto do 20 de novembro com uma pergunta: O que Zumbi – um estrategista nato – faria para defender o povo negro num momento como o que estamos vivendo?

Não ouso sugerir a resposta, mas asseguro que em sua ação os palmarinos não abririam mão das Tecnologias da Informação e Comunicação – as TICs –, instrumento com o qual eles não contavam no século 17. O Brasil é uma País de dimensões continentais e em todo ele há negras e negros em profusão. Porém, essas tecnologias teriam de fluir num sentido comum e organizado, independentemente da área em que se estivesse atuando.

 

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Gestão Escolar para a Equidade – Juventude Negra

O Baobá – Fundo para Equidade Racial, o Instituto Unibanco e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) realizarão o Seminário Gestão Escolar para Equidade – Juventude Negra, no dia 24 de outubro, em São Paulo.

O evento contará com a participação de especialistas que discutirão os desafios do acesso, da permanência e da conclusão do Ensino Médio com qualidade pelas juventudes negras, além de apresentar ações inovadoras já em curso no Brasil.

Na ocasião, será lançada a segunda edição do Edital Gestão Escolar para Equidade – Juventude Negra, que selecionará dez projetos de gestão a serem desenvolvidos ao longo de 2017 em escolas públicas brasileiras.

As inscrições podem ser feitas via internet neste link.

Vereadoras e Vereadores do Brasil de Carne e Osso

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Um Pedido: Não vote no inimigo

A expressão “Votar no Inimigo” parece um pouco forte – eu sei. Mas, sinceramente, pergunto: A maioria dos políticos que têm recebido o voto do povão brasileiro – negro em sua maioria -, tem defendido os direitos de cidadania dele?

Miltom Santos, entendia que a escola dos filhos da lavadeira deveria ser de excelência – a melhor de todas – como forma de compensar os obstáculos mais infames acumulados por gerações, incluindo os de cunho psicológico.

Pergunto de novo: Essa é a escola que as cidades brasileiras oferecem às regiões mais necessitadas? E quanto às creches – quando existem -, como são? O mesmo questionamento vale para a ausência de centros de lazer para os jovens – ávidos que são por cultura -, mas que ficam soltos nos guetos sujeitos ao que há de pior.

O silêncio ensurdecedor para resolver essas questões sinaliza o quê? O silêncio, já foi dito, é uma das mais maneiras mais sofisticadas de aniquilar todo o potencial de um grupo. Pode e se mata muito por esse caminho no Brasil – todos sabemos.

As candidaturas apresentadas para as cidades de Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Rio, são de pessoas conhecidas e reconhecidas pelo que já vêm fazendo.

Por outro lado, o momento político que vive o Brasil requer um parlamento municipal ativo e altivo, pois deverá ser uma trincheira para esses tempos de regressão de direitos. Afinal todo mundo vive em cidades.

Tenho 5.000 amigos/as no Facebook e mais um sem-número de seguidores. Sinto que podemos juntos ajudar a mudar esse jogo.

SALVADOR

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BELO HORIZONTE

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SÃO PAULO

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RIO DE JANEIRO

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Como multiplicar os votos

O seu voto é importante, mas você precisa multiplicá-lo. Deve fazer isso em 3 etapas:

  1. Aborde as pessoas que moram em sua casa: marido/esposa, pais, filhos e irmãos.
  2. Em seguida, os parentes: tios/primos, sogros/cunhados, avós.
  3. Depois, busque os amigos + próximos.

Você vai se impressionar com o número de pessoas alcançado. É fácil passar de 50 eleitores. Explique a cada um deles que o voto é um direito que precisamos exercer direito; valorizando-o. Diga que é um absurdo continuar a eleger pessoas que operam na destruição dos direitos do povão.

Use sua criatividade: WhatsApp, telefone, e-mail e replique nas redes sociais essa publicação ao máximo.

Não Vote No Inimigo

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Mais de 144 milhões de eleitores deverão ir às urnas em 2 de outubro próximo para eleger 5569 prefeitos e cerca de 57 mil vereadores. Mais da metade desses eleitores é formada por negros. (Pretos e pardos, segundo o IBGE). Todos vivemos em cidades e o funcionamento delas têm a ver diretamente com a nossa cidadania.

O ato de votar é o único que iguala a todos: branco e negro; homem e mulher; rico e pobre. O voto de um homem milionário vale tanto quanto ao da mulher que limpa as privadas de seu escritório. É o único momento que todos valem a mesma coisa.

Se tomarmos em conta os indicadores, como rendimento médio domiciliar, acesso à Educação de qualidade, taxa de desemprego, condições de habitação, qualidade dos serviços de saúde e transporte, vê-se a precariedade que atinge de forma aguda a população da periferia, em sua maioria negra. Ora, a precariedade da população negra decorre da ausência de políticas públicas adequadas. Tal ausência é motivada pelo racismo institucional, que antecede a tudo isso. Nas cidades, quem cuida dessas políticas são os prefeitos e vereadores. Pela qualidade de vida que tem a população negra brasileira pode-se depreender que ela vem votando em quem não gosta dela. Nós elegemos e damos poder àqueles que uma vez eleitos vão operar na contramão dos nossos direitos de cidadania. Tais políticos fazem um silêncio sombrio sobre as mortes avassaladoras da juventude negra. Não têm proposta para as nossas periferias a não ser referendar a violência. Violência que se dá pela falta de creches, postos de saúde, centros culturais e culmina com a ausência de oportunidades que arrasta a juventude pobre e negra para a morte. Quando aqueles equipamentos existem, não têm qualidade. As regiões mais carentes precisam ser compensadas com creches, postos de saúde, escolas e centros de lazer de excelência. O melhor para quem tem menos: equidade regional. A gestão municipal funciona hierarquizando os cidadãos: os de primeira e segunda classe. Não conseguem perceber que o investimento qualificado nas periferias faz brotar ouro, como se viu com o sucesso dos ganhadores das olimpíadas que não vieram dos bairros ricos. No dia da eleição, quando vejo o povo preto nas filas para votar, sinto-o como gado indo para o matadouro, pois é o único eleitor do mundo que elege os seus inimigos.

É um escândalo a população negra eleger e empoderar aqueles que, uma vez eleitos, cuidarão com zelo da destruição de seus sonhos. Essa perversidade se deve, principalmente, pela forma sofisticada do racismo atuar em um país de maioria negra, onde os meios de comunicação e a Educação existem para perpetuar a ordem vigente desde sempre.

Por conta disso, o blog BRASIL DE CARNE E OSSO vai sugerir alguns candidatos e candidatas para as Câmaras Municipais de Salvador, São Paulo, Rio e Belo Horizonte, os quais vão operar a favor dos direitos dessa maioria negra tão mal representada. Aguardem.

Sem o trabalho de multiplicação pelas redes sociais, WhatsApp e outros meios eletrônicos, não vai acontecer. Portando, vamos sugerir também uma metodologia mínima. A campanha é cara e curta e esses candidatos que serão apresentados não são ricos, mas têm compromisso e capacidade: duas coisas necessárias e complementares para o bom exercício da vereança.

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Dilma Vana Rousseff II

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Dilma Vana Rousseff II

Divulgação: TV Senado

Dia 29 de agosto, da tribuna do Senado, ao defender o seu mandato conquistado nas urnas, a presidenta Dilma Rousseff – “Guerrilheira”, como é chamada pelos seus algozes -, foi de uma dignidade ímpar, como raramente os homens conseguem ser. Dilma, por 14 horas seguidas, enfrentou um debate em que procurava se defender do indefensável, pois o veredicto já estava posto. Todas as tentativas da presidenta em corrigir os problemas fiscais que afetavam a economia do país, algumas delas contrariando suas próprias convicções, foram rechaçadas uma a uma. Pelo contrário, o tempo todo a claque de Eduardo Cunha armava-lhe como resposta pautas-bombas, que explodiriam as finanças desastradamente. Irresponsabilidade parlamentar em estado puro. Os senadores e senadoras, transformados em juízes, cometeram o crime perfeito. Toda vez que uma vítima é transformada em ré, tem-se o crime perfeito.

Em março do ano passado escrevi, aqui nessas páginas, nosso primeiro texto sobre a saga da presidenta. Naquela ocasião, afirmei que a sua característica mais rica não era de cunho partidário. Disse: “sua biografia é quem diz de seu caráter e sobretudo de seu compromisso com a mais legítima causa nacional”. Acrescento: trata-se de um compromisso que a fauna política nacional raramente apresenta; em sua maioria formada por homens.

A maioria dos analistas não lograram, ou não quiseram, perceber o componente misógino neste longo processo. Todavia, todos aqueles que lutam contra as discriminações sabem decifrar os sinais de irracionalidade próprios de quem hierarquiza as diferenças. Dilma, além da birra ideológica do mundo empresarial, sofreu uma sofisticada rebelião misógina, energia que alimenta o patriarcalismo que é o cerne da política brasileira. Rebelião sofisticada porque sugere uma aparente neutralidade. De fato, para um misógino-esgotador, figura que decifro em meu romance O homem lésbico (Editora Global), as mulheres que detêm um brilho especial – e Dilma é uma persona esfuziante -, são as vítimas preferenciais desse macho, que é um espécime de vampiro que se alimenta, não de sangue, mas da luz que emana daquelas mulheres. O efeito da ação desse tipo de misógino costuma ser devastador, pois ele busca eclipsar a energia que alimenta a força dessa mulher especial.

Dilma enfrentou doença grave e a venceu. Ao vê-la no Senado, por 14 horas seguidas, responder às intermináveis e repetidas acusações num país em que políticos-prefeitos roubam o dinheiro da merenda das crianças pobres, me fez sentir, além de vergonha como brasileiro, uma revolta doída.

Sobre o seu desempenho altivo na trincheira que se tornou o Senado, no dia seguinte, a mídia em uníssono repetiu: “Dilma não disse nada de novo”. Absurda e cretina essa observação! Ora, se as acusações continuaram sendo as mesmas, porque se deveria mudar as respostas….

Na ausência da tipificação de crime de responsabilidade – única forma de afastar quem ocupa a presidência da república -, alega-se por último que o impeachment é “pelo conjunto da obra”. O que essa ideia enseja é que se pode afastar alguém do poder executivo devido ao seu desempenho. No presidencialismo não deve ser assim: governantes que desagradam saem mediante eleições. Não há outra forma de afastar governantes que não cometeram crimes a não ser mediante golpes. Todos os golpistas em todas as partes do mundo não se vêm como tais. Por que aqui deveria ser diferente? Mil-bocas repetem: houve um processo transparente com pleno direito de defesa etc. Alegar o cumprimento da ritualística processual para negar o golpe parlamentar não convence; em especial à mídia e aos governos do mundo. Nosso país se rebaixou – como uma república bananeira do século 21. Somos o país da mentira crônica: tudo o que somos; negamos – de bom e de mau. Não se reconhece o valor da diversidade brasileira, por outro lado não assumimos o machismo, a homofobia, o racismo e o absoluto desdém das elites ao baixo padrão de civilidade que ostentamos secularmente.

A verdade é que tudo foi muito bem urdido por forças diferentes: políticos derrotados, a parte nefasta do mundo corporativo, como a FIESP, o TCU, setores do judiciário, a Mídia e também, é claro, parte importante da população mais abastada que não gosta do PT, que não deve ser eximido aqui dos erros cometidos. Em alguns momentos, Dilma não se viu apoiada integralmente nem pelos de seu partido; o PT. Houve, sobretudo, a sabotagem do PMDB a quem estava entregue a vice-presidência da república e inúmeros ministérios.

O governo Dilma sofreu uma queda semelhante à de um Boeing; em que diversos e reiterados erros tiveram de ser cometidos. Exibir fraqueza num jogo político selvagem como foi o do impeachment não me pareceu positivo. Por exemplo: ter rebaixado ministérios como o da mulher, o da Igualdade Racial e o dos Direitos Humanos. Cortar na própria carne não arrefeceu as bancadas que no congresso não se organizam a partir das siglas partidárias, mas sim da conjunção de interesses: a dos evangélicos, dos ruralistas, a da bala etc. Pelo contrário: tais segmentos se animaram e ficaram mais sectarizados.

O que pude observar é que Dilma, e de certa forma também Lula, tiveram e estão tendo os seus dias de “negro”. Explico-me: o tratamento midiático dado a ambos tem sido muito semelhante à epopeia das cotas raciais, na qual os editoriais truncados desinformavam, deturpando a essência do que se tratava. Tudo de forma sincronizada e sem dar chance à resposta no mesmo tamanho e a tempo. No caso das cotas raciais os algozes das ações afirmativas perderam de 11 a zero no STF – desfecho bem diferente do que se observa agora.

A essência do problema que a sociedade brasileira vai ter de enfrentar não está apenas no afastamento de Dilma Vana Rousseff, mas sobretudo nas ações políticas já em curso. Em nenhum momento do debate político-eleitoral travado nas eleições de 2014 cogitou-se congelar por 20 anos os gastos com saúde e educação. Tais iniciativas têm as impressões digitais dos que urdiram essa trama. Trata-se, pois, de um golpe profundo na cidadania tão fustigada dos brasileiros e brasileiras.

Quem É Ouro no Brasil

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medalha de ouro

Foto: Reuters – Bruno Kelly

As fotos revelam que a principal fonte de medalhas de ouro das Olimpíadas foi a população negra, que segundo o IBGE é formada por pretos e pardos.

Tenho dito que a periferia brasileira é ouro puro; figuração que faço para evidenciar a riqueza que ali sobrevive. Nada vale mais nesse planeta do que talento, mais que o próprio ouro. E convenhamos: esse material é abundante em nossos bairros periféricos, favelas, cortiços e invasões. As Olimpíadas que acabaram de se encerrar no Rio comprovou de forma cabal o que dissemos recentemente aqui nessa página. Sempre lembro que, apesar de dispormos de fartos veios de ouro puro, optamos pelas bijuterias. Ou seja: valorizamos os bem-nascidos que não precisam se empenhar para manter seus privilégios. O resultado é o país que nos resta: baixa capacidade de crescimento com inclusão; jejum completo de Prêmios Nobel e medíocre pontuação nos principais rankings mundiais de excelência. Bem, há duas exceções em que somos modelos: na música e no futebol – precisamente nos dois setores em que os negros não foram impedidos de atuar.

O que as Olimpíadas revelaram é que basta um investimento básico para que o retorno venha com fartos ganhos para a cidadania brasileira.

5 medalhistas

É o caso de Rafaela Silva (24 anos), nosso primeiro ouro no Rio, oriunda da Cidade de Deus e que sofreu ataques covardes na Internet. É hoje sargento da Marinha.

Thiago Braz (22 anos) que, além do ouro, estabeleceu recorde olímpico no salto com vara: 6,03 metros. Foi criado pelos avós paternos e sofreu processo de abandono pela mãe.

O boxeador baiano Robson Conceição (27 anos) foi outro que viveu uma saga para chegar ao pódio, conquistando uma inédita medalha de ouro na categoria leve.

É ainda o caso do ex­ajudante de pedreiro Maicon Siqueira (23 anos) que faturou a 2a medalha brasileira num esporte ainda raro por aqui, como o taekwondo.

Mas de todos os laureados ninguém foi mais extraordinário do que o também baiano Isaquias Queiroz (22 anos) que ganhou 3 medalhas – 2 de pratas e uma de bronze, ­, tornando­se o primeiro atleta brasileiro a cumprir tal façanha numa mesma edição das Olimpíadas. O Brasil disputa as Olimpíadas desde 1920 e coube a este canoeiro – pobre e do interior – essa epopéia. Seu parceiro na disputa em dupla – Erlon Souza (25 anos), em sua primeira Olimpíada ganhou também a medalha de prata.

Todos esses heróis olímpicos são de origem humilde, como de resto são também quase todos os atletas negros da seleção olímpica de futebol e que são a maioria daquela equipe.

Por outro lado, a natação nas Olimpíadas não conquistou uma medalha sequer. Entenda­-se, não foi por falta de piscinas: clubes, condomínios, residências e colégios particulares dispõem de um estoque excessivo desses equipamentos, sendo que diversos desses espaços contam ainda com instrutores de natação.

Quando o Ministério dos Esportes, que no Brasil tem sido moeda de apoio político, passar de fato a investir nas periferias com a construção de equipamentos adequados e com material humano de apoio, a colheita de medalhas será farta. Repito mais uma vez: nenhum país pode, impunemente, desperdiçar talentos como faz o Brasil.

Tal desperdício aqui se deve ao racismo institucional que impregna as políticas públicas e as decisões do setor privado.

 

 

Medidas Antifraudes Não São Tribunais Raciais

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Volto mais uma vez a esse tema que já deveria estar superado há pelo menos 10 anos.

Foi uma epopeia, em que batalharam muitos atores e atrizes, a conquista das ações afirmativas, apelidadas de “cotas raciais” no Brasil. Em meados dos anos 1980 o Movimento Negro já questionava a “neutralidade” do setor público em relação à cidadania da população negra e passa a operar a partir do Estado; o mesmo que durante séculos fizera um silêncio de chumbo contra todas as arbitrariedades cometidas contra aquele segmento. Quando o tema “pegou fogo”, 10 anos depois, enfrentamos um “muro midiático” incansável que insistia – e ainda insiste – em repetir o mantra do “problema social”. Teríamos aqui um problema social – os chamados “carentes”; mas não racial. Essa mídia, que não se aventurara antes a defender ações afirmativas para os pobres, passou a defendê-las. Foi um jogo sujo, onde jamais o contraditório teve o espaço devido para rebater na mesma dimensão as aleivosias plantadas num sem-número de editoriais. Há estudos acadêmicos que flagraram essa distorção: artigos e dissertações. Intelectuais e pessoas influentes se juntaram e tiveram um espaço poderoso na grande mídia (Grupos FOLHA, O ESTADO, GLOBO e ABRIL) para desmoralizar o fundamento das ações afirmativas para negros. Argumentavam todos que os negros eram a maioria empobrecida e que, portanto, as “cotas sociais” os beneficiariam. Importante saber: somente há cotas sociais nas universidades públicas, hoje, porque os negros reivindicaram espaços. Portanto, as “cotas sociais” são um subproduto legítimo das “cotas raciais”. O simplismo desse debate é apenas aparente. O que está em jogo é de cunho ideológico: como não há racismo e nem uma questão racial no Brasil – argumentam -, as políticas hão de ser de cunho social, contrariando a tese do Movimento Negro que tem na história racial do indivíduo a marca que justifica a ação afirmativa.

“Tribunal Racial” como álibe para o retrocesso

A Orientação Normativa que estabelece regras para aferir a veracidade da autodeclaração racial nos concursos públicos não é um “Tribunal Racial” implementado pelo Governo Temer. Trata-se de uma medida inspirada no Ministério Público de quem o Movimento Negro há quase uma década reivindica medidas para evitar fraudes absurdas. É um escândalo mais uma vez roubar-se o protagonismo negro.

A mídia brasileira vive hoje um momento de vingança contra a “lavada” de 11 a zero no STF, decisão que foi favorável às cotas raciais. Editoriais de norte a sul comemoram, como se nos admoestassem: “nós avisamos”, não dá para saber quem é negro no Brasil….

Comparar a Orientação Normativa N. 3 de 1/8/2016 da Secretaria de Gestão de Pessoas do Serviço Público a um “Tribunal Racial” é muito mais que má-fé. De fato, não há como negar: existem “tribunais raciais” no país – sim -, onde negros não têm nenhuma chance de defesa pois são sumariamente mortos, como os 5 garotos chacinados por 111 tiros da PM no subúrbio do Rio de Janeiro. Toda sociedade brasileira sabe desses “tribunais”: mídia, partidos, governo, instituições, etc.

O Movimento Negro vem sendo omisso em relação a diversos aspectos de interesse da população negra. Todavia, beira à irresponsabilidade não perceber o que está em jogo. Estão vindo à tona todos os pseudos-argumentos que vencemos a duras penas em 15 anos de lutas. Trata-se de um falso debate. Falso, porque o beabá da gestão pública exige transparência e fiscalização – ambas são da essência do regime republicano. Deve-se sugerir que medida normativa semelhante seja estendida às universidades públicas, onde o descalabro é total (a esse respeito, sugiro ler artigo no site da Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos – RBEP, volume 94, N. 237).

O que se percebe é que parece haver interesses escusos em curso. Qualquer retrocesso das políticas afirmativas implementadas pelo Estado Brasileiro virá por aí – os supostos impedimentos da autodeclaração.

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Al Jolson no filme The Jazz Singer (1927)

Autodeclaração e Falsidade Ideológica

Uma pessoa branca se autodeclara negra e assume com a conivência de todos – inclusive de órgãos como a OAB e MP – o lugar reservado a uma pessoa negra na universidade ou na Administração Pública. Nota-se aqui o pior dos racismos: aviltar e fraudar direitos tardios conquistados por diversas gerações de ativistas. Em tempo: falsidade ideológica dá cadeia, 1 a 5 anos mais multa. Alguém conhece algum fraudador que tenha sido penalizado?

Debater a ideia de como aferir a veracidade da autodeclaração racial me parece importante. Porém, contestar essa exigência sem propor nada que vede as fraudes é irresponsabilidade ou má-fé. A simples menção da exigência já deverá afastar a maioria dos fraudadores.

Parece que alguns entendem a autodeclaração – algo valioso para a luta antirracista – como um passe livre contra o qual não cabe nenhuma contestação. Pasmem: a primeira iniciativa de alguns fraudadores é destruir seu perfil no facebook. Há casos de quem recorra a processos de bronzeamento. Outros encrespam o cabelo. Enfim, se fantasiam de pretos. Para os cargos mais valorizados há situações insustentáveis dado o número de fraudes. O mesmo se dá nos cursos mais valorizados das universidades públicas. As ações afirmativas não são auto-monitoráveis. Pelo contrário: requerem produção de conhecimento na área da Administração Pública em virtude do descaso do Estado e da Academia nesse campo aqui no Brasil. Nesse sentido, deve-se louvar a iniciativa da Secretaria de Gestão, pois atende à uma demanda antiga do Movimento Negro.

Percebe-se que está em curso um 3º tempo de um jogo já vencido pelo ativismo negro brasileiro. O que se exige, hoje, é um novo jogo que efetive e amplie nossos direitos. Não se deve entrar nesse enredo falacioso não percebido por alguns, pois não se busca assegurar os direitos do povo negro; muito pelo contrário.

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Mira Ira Particular

BRASIL: ONDE A IDEIA DO MÉRITO É PIADA PRONTA

A palavra mérito tornou-se um mantra nacional quando se colocou na agenda do país as ações afirmativas para negros – aqui apelidadas de “cotas raciais”.

Nos meados dos anos 1990, a simples menção à necessidade de inclusão no mundo universitário público – olimpicamente branco – fez bradar pelas mil bocas da reação: mídia, academia, partidos, mundo acadêmico, jurídico, político e empresarial; a importância da meritocracia como pré-requisito para o desenvolvimento. Ou seja, a elite, num uníssono avassalador, lembrávamos o tempo todo: “não se pode perder qualidade”. Sim – faltam à essa elite, além de senso de realidade, vergonha e, claro, qualidade moral.

A maior heresia nacional: a qualidade

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Integrantes da delegação holandesa levando material de limpeza para poderem utilizar as instalações da Vila Olímpica no Rio – Folhapress

Perguntas que não querem calar:

1.Qual a qualidade das acomodações recém-construídas para as Olimpíadas no Rio? Importantes construtoras nacionais ficaram encarregadas de construí-las; e resultado: vergonha reproduzida pelos 4 cantos do mundo revelam nossa absoluta incompetência tecnológica e irresponsabilidade estratégica. Australianos, suecos, holandeses e outros não puderem se instalar. Fatos, como o alto índice de poluição da Bahia da Guanabara não deveriam acontecer. Em 7 anos de preparação não se conseguiu dar conta de algo que fora prometido.

2.Qual a capacidade dos economistas brasileiros em desenvolver planos que tragam equilíbrio e desenvolvimento para a população?

São ridículos e vendidos. Sabem cortar despesas de cunho social, mas jamais receber as receitas tributárias sonegadas por uma elite doente, desde longa data muito doente. Nosso principal herói – Tiradentes – liderou uma campanha contra o pagamento dos impostos. Os resultados são frustrantes e desoladores. O Brasil é – de longe, pelo seu tamanho e importância – um dos países mais desiguais do planeta. Não há teórico da Economia Brasileira que dê conta disso – isto à direita, é claro, e também à esquerda! Nenhum partido – nenhum – tem nada a oferecer nesse campo.

3.Quantos prêmios Nobel o país do mérito já conquistou?

Nossos acadêmicos gostam de exigir mérito da filha da faxineira terceirizada que limpa as privadas das universidades em que eles trabalham. Nada de se comparar ao Norte do mundo… Medíocres. Escandalosamente incapazes de criar algo fora de suas caixinhas bem quadradas.

Não conseguem fazer o gol de bicicleta – invenção preta brasileira – que as regras do futebol não previram.

Aliás, o futebol e a música, são as duas únicas áreas em que os negros não foram vetados, também são as únicas em que o país é reconhecido em todo o mundo como vetores de excelência! As periferias brasileiras são ouro puro, mas aqui ama-se as bijuterias. Bijuterias Finas.

O resto é uma vergonha só: políticos e empresários corruptos, violência do estado, destruição ambiental, fundamentalismo religioso, violência contra as mulheres, negros e homossexuais, mídia desconectada dos interesses nacionais. O país, além de perigoso, vem se tornando brega, com as cidades muito mal cuidadas.

4.Qual a capacidade de gestão tem os homens públicos brasileiros? Quantos estadistas produzimos? Quando o povo, de fato, foi relevante para nossas elites políticas?

O caos do transporte público urbano, a ausência de saneamento, o descalabro da saúde, a educação escandalosamente falha, a insegurança que a chamada segurança pública provoca, o roubo sistemático – da merenda das crianças às variações cambiais arranjadas, sem esquecer os remédios e os bancos de sangue –, as concorrências fraudulentas que roubam os recursos de um estado avaro em promover cidadania, a falta de qualidade e fraudes sistemáticas dos serviços telefônicos, dos planos de saúde, dos serviços dos aeroportos. Não há espaço na sociedade brasileira onde não haja fraude, roubo, desonestidade, falta de qualidade muito incompetência. Os Milhares de favelas que se amontoam em nossas cidades são o retrato cabal da falência de uma elite que deveria fugir – toda ela – para Miami. Os brasileiros em fuga para o exterior alegam a falta de segurança. Fujam logo! Quanto mais correrem, mais segurança interna teremos. Quem corre risco aqui não são os filhos e filhas desses fujões, mas sim os jovens negros que morrem todos os dias de uma forma avassaladora: cerca de 25 mil por ano…

5.Qual o amor que as medíocres elites brasileiras devotam a esse país?

Como deveriam provar isso? Asseguro, não é distribuindo o seu rico dinheiro, mas gerando igualdade de oportunidades – algo que nunca entenderam, porque sempre dispuseram de privilégios históricos.

Igualdade de oportunidades em todas as áreas – todas.

As mesmas empresas que ao recrutarem trainees excluem negros são as que não funcionam com a qualidade que requerem do povaréu.

6.Qual a contribuição da Academia para as efetivas mudanças? Da chamada intelligentsia?

Sempre que pensou em soluções para a terra-brasilis tinha a mente na Europa… Sei: sempre haverá as exceções – raríssimas algumas. Mas, na vida real, elas pouco valem.

Arnaldo Xavier, poeta maior que já nos deixou do mundo físico, me ensinou: “eu reivindico não mais a qualidade, mas o direito de exercer a mediocridade que o branco sempre pôde exercer nesse país o tempo todo…”

Meu cansaço e ira me autorizam a dizer: os negros não podem mais continuar a eleger os seus inimigos – simples assim!

Comecemos por aí.

O Que Fazer Pela Equidade Racial Hoje – Artigo III

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O Brasil tem uma desigualdade renitente porque não deseja e não suporta decifrar suas entranhas em que o componente étnico-racial, desde sempre, foi e continua sendo o seu vetor estruturante. A pobreza e a desigualdade aqui têm cor e procedência. 

Uma Corrente pela Equidade Racial

A farsa do impeachment é apenas a ambiência preparada para uma agenda que vem sendo chamada pela grande mídia de “liberal”. Em verdade, trata-se de uma agenda de reação contra direitos conquistados, reafirmando um posicionamento de Milton Santos: “Aqui se luta pela manutenção de privilégios; não por direitos.”

Quando ruralistas, evangélicos e MPL se unem para forçar uma agenda conservadora, como se posicionar contra ela de forma eficaz?

Fugi da ideia de “Partido Negro” a vida toda, mas algo precisa ser feito. Os partidos não assumem nossa agenda inteira. Nos anos 80 a esquerda se posicionava contra a pauta específica racial, nos 90 não jogou firme ao nosso lado quando sofremos um ataque midiático sem precedentes e neste início de século os ditos “progressistas” não decifram uma agenda adequada para o Brasil de carne e osso. Claro, o ativismo negro tem muita responsabilidade nisso – todos e todas nós.

O sectarismo, aparentemente manso, dessa “agenda liberal” não é bom para o país, porém ele acaba nos inspirando para uma ação política que é o perfeito avesso daquela ideia.

Subversão Santa

Não se desenvolve uma corrente com aquela missão sem 2 elementos cruciais: 1) lideranças proativas que não partidarizem a questão racial e 2) Tecnologia de informação adequada, pois somos um país continental com mais de 5.500 cidades. É necessário explicar: “não partidarizar”, significa não crer que cabe a quaisquer dos partidos existentes a primazia de levar a bandeira da equidade racial. Os/as ativistas podem estar nos partidos, mas conscientes de que nenhum deles tem a compreensão de que esta questão é o que estrutura as desigualdades no Brasil.

Uma Corrente pela Equidade Racial no Brasil, pode se revelar um instrumento adequado para discutir com profundidade o advento de uma cultura de desenvolvimento nova, plural e mais justa. Uma sociedade que em vez de hierarquizar as diferenças, busque valorizá-las e preservá-las. Enfim, uma sociedade que dê término a essa indecência que em pleno século 21 mantém o “país do futuro” convivendo com doenças como a dengue, zika vírus, tuberculose, doença de chagas e outras pragas antigas que são as chamadas “doenças de pobres”, que ainda nos avassalam.

Todavia, como bem observa Edson Cardoso, esse protagonismo para ter efetividade de cunho político precisa estar direcionado. Não existe outra direção que não seja a da Equidade Racial. Tudo o que se fez até aqui no Brasil não foi capaz de torná-lo um País cidadão. Pelo contrário: a subcidadania renitente que nos flagela o comprova de maneira cabal e ordinária.

Ninguém poderá dizer que essa é uma agenda para a população negra apenas – mais da metade do país -, pois se trata de uma resposta inteira às desigualdades que tornam o Brasil um gigante com os pés de barro. Portanto, reafirma-se aqui uma posição que temos reiterado: a batalha pela equidade racial, longe de ser um problema, é a busca de um caminho para o Brasil, cujo rumo jamais se ajustou.

Portanto, nossa provocação que se completa nesse último texto, responde parcialmente à questão-título, deixando em aberto, contudo, qual o mecanismo a ser usado para a colimada efetividade política.

As lideranças negras têm errado muito e o preço, muitas vezes, tem sido pago com a vida de muitos dos nossos; especialmente os mais jovens. Continuamos a ser os derradeiros subversivos do Brasil. Temos de praticar uma subversão santa iniciada no fim do século 16, quando a ideia de liberdade nas Américas foi fincada pela primeira vez pelos Palmarinos. Precisamos honrá-los.

Foto: Lula Marques/Agência PT)

Foto: Lula Marques/Agência PT

Diversidade é Vantagem Competitiva

AS POLÍTICAS DE AÇÃO AFIRMATIVA COM FOCO NA EQUIDADE RACIAL FARÃO COM QUE AS ORGANIZAÇÕES SE PAREÇAM MAIS E MELHOR COM O BRASIL, Por Helio Santos

Conquistar diferencial competitivo tem sido uma procura constante das empresas. No entanto, obter recursos que a concorrência ainda não alcançou tem a ver, cada vez mais, com a gestão de pessoas. Em larga medida, isso se deve à difusão tecnológica equânime entre os concorrentes, restando aos colaboradores o papel definidor para o alcance da ansiada vantagem competitiva. A implementação de políticas que valorizam a diversidade é uma das principais estratégias contemporâneas para a consolidação do sucesso das organizações, sendo mesmo um “fator obrigatório” para tanto, como preceitua Peter Druker29. O conceito de diversidade se origina na biologia, que, como se sabe, estuda os seres vivos. Impressiona como essa ideia é adequada ao mundo corporativo. As empresas nascem, crescem, amadurecem e também podem sofrer obsolescência, adoecer e mesmo fenecer, como os sistemas estudados pelos biólogos. É sintomaticamente crucial o fato de que, tanto para a biologia como para os estudos organizacionais, a ideia de diversidade seja tão pertinente. Dados revelados por esta série de pesquisas Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas evidenciam, desde 2003 até hoje, uma baixa participação negra nas organizações do país. O Censo de 2010 constatou que 51% da população brasileira é negra (pretos e pardos). Sendo assim, debater criticamente a valorização da diversidade étnico-racial é fundamental para compreender o Brasil e as desigualdades estruturantes que guarnecem o quadro social que nos singulariza perante o mundo globalizado.

Não se tem notícia, até o presente momento da humanidade, a respeito de um país que tenha consolidado um desenvolvimento sustentável desperdiçando os talentos de que dispõe. Pelo contrário: nenhuma nação pode, impunemente, desperdiçar talentos – quaisquer talentos. Por outro lado, há uma invisibilidade da temática étnico-racial nas organizações brasileiras, que têm um peso cultural poderoso no que diz respeito ao não aproveitamento de negras e negros em seus quadros de colaboradores. É fácil compreender o impacto desastroso dessa inércia, considerando que somos um país de maioria negra. Uma das providências preliminares para essa síndrome é reconhecer que existe uma efetiva dificuldade para a inclusão qualificada de negras e negros no mercado de trabalho. Há estudos relevantes que evidenciam a prática da discriminação racial – a discriminação ocupacional (que questiona a capacidade do negro) e a discriminação pela imagem, quando a empresa idealiza um perfil em que o negro não deve estar presente. Uma das maiores riquezas intangíveis do Brasil é sua etnicidade múltipla, que se deve a eventos históricos diferentes: a negro-africana teve caráter compulsório, a europeia foi estimulada pelo Estado e a indígena é remanescente. Não faz sentido, em termos estratégicos, optar-se pelo uno quando se tem uma estrutura diversa e rica que se coloca como vantagem competitiva perante vários países que não dispõem desse componente reclamado por Druker. O desenvolvimento econômico requer mais do que slogans. O conceito contemporâneo de desenvolvimento deve pontuar quais são os beneficiários do crescimento econômico e não pode perder de vista o custo de oportunidade que se paga por desperdiçar talentos. As políticas de ação afirmativa com foco na equidade racial farão com que as organizações se pareçam mais e melhor com o Brasil, que ganhará em inovação e complementaridade. Não adianta só as empresas fazerem o melhor. É preciso fazer o melhor da melhor maneira, incluindo no portfólio dos produtos e serviços desenvolvidos no país um insumo necessário nesse milênio que se inicia: o da qualidade ético-moral.

Helio Santos é doutor em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), consultor em responsabilidade social, professor-convidado da Universidade Estadual da Bahia (Uneb) e presidente do Conselho do Fundo Baobá para Equidade Racial.

Veja artigo e pesquisa Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas

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