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Ser branco no Brasil, afinal, propicia vantagens – ou não – ao titular da branquitude? Bom lembrar: a rigor nem precisa ser branco segundo os padrões europeus, basta ser “socialmente branco”, como se dá na terra-brasilis.

Filme que rodou na Web, “bombou” nas redes ao trazer de maneira humorística a branquitude brasileira, mostrando os brancos se “dando bem”.

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Em 2002, ao ser entrevistado no Programa Roda-Viva da TV Cultura, por afirmar algo parecido, fui bombardeado por todos: entrevistadores e telespectadores. No final do programa me foram entregues, em papel, centenas de perguntas desaforadas. Quase 15 anos depois muita coisa mudou: o STF por unanimidade se manifestou a favor das cotas raciais. Políticas foram implementadas no sentido de reduzir as vantagens que por décadas o Movimento Negro denunciou. O citado programa pode ser visto neste link: https://www.facebook.com/brasildecarneeosso/videos/1050963684962024/

Assim, em tese, o país já sabe que os brancos levam vantagens – sim. Essa defasagem histórica se instala aqui no momento que os portugueses começam a explorar essas plagas: 1534. O vídeo erra quando diz que os brancos levam vantagens “Há mais de 500 anos”, pois são precisamente 482 anos. Muito tempo.

O esquete que será exibido pela Globo no dia 24 já é um mega sucesso com quase 3 milhões de visualizações. Ao ler os comentários percebo que após 15 anos, apesar das mudanças ocorridas, permanece uma desinformação   alucinante sobre a questão das desigualdades raciais. Causa-me comoção ao constatar tanta estupidez política por parte de brancos e também de negros a respeito.

Não há como negar a “qualidade técnica” daquela produção: personagens, interpretação e enredo. É precisa a utilização do segurança (bem preto) travando a entrada de uma mulher negra. Há casos de assassinatos. Em 2006 numa agência bancária do Rio um segurança negro atirou e matou um cliente igualmente negro. O serviço de segurança – mal remunerado e de baixo status profissional – é uma atividade exercida majoritariamente por homens negros.

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Por outro lado, é marcante a apresentação da mulher branca afirmando as “vantagens” das quais ela o tempo todo se faz usuária. Marcante também o fato de o homem branco de meia idade reafirmar ser sempre o mais bem remunerado. Vê-se, ainda, mulheres negras em funções subalternizadas. De fato, a hierarquização exibida no vídeo é a mesma que os estudos revelam: primeiro o homem branco; depois a mulher branca; em seguida, o homem negro e, finalmente, a mulher negra.

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Há um volume considerável de estudos que mostram o custo que se paga por ser negro no Brasil. Desde meados dos anos 1970, Nelson do Valle Silva e Carlos Hasenbalg demonstravam, quantitativamente, as diferenças resultantes das vantagens de brancos sobre negros.

A questão do vídeo desenvolvido pelo grupo “Tá no Ar”, liderado por Marcelo Adnet, é que sempre restará uma dúvida grave. Por se tratar de um grupo teatral que trabalha bem com a sátira, caberia as perguntas:

1.Trata-se de humor que escracha a posição do ativismo negro que utiliza esse argumento para propor políticas públicas?

2.Ou o “Tá no Ar” faz uma crítica denunciando as desigualdades raciais resultantes do racismo, contrariando a linha do humor que sempre se fez na Globo?

Pela foto, o grupo de humor “Tá no Ar” com seu diretor, que opera num país de maioria negra, “Tá na Dinamarca”.

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A repercussão do filme me confirmou uma ideia que tenho defendido há muito tempo: a batalha contra o racismo precisa utilizar mais da tecnologia da comunicação – TV, WEB, cinema – para ter maior eficácia. Não adianta só reafirmarmo-nos como maioria, precisamos também de operarmos como tal. O empoderamento, tão falado e repetido, além de estar em nossas consciências, precisa repercutir de forma que produza cidadania. Os caminhos são vários: participação política, direitos múltiplos, renda – equidade, enfim.

O desafio da luta antirracista, que busca empoderamento cidadão, passa pela comunicação pois, além do racismo institucional enraizado na sociedade – os comentários feitos sobre o filme confirmam esse quadro -, o Brasil é um imenso continente com 5570 cidades. Muito precisa ser feito, dito e demonstrado de forma didática, com ou sem humor.

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