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Foto: Matheus Rodrigues/G1

O Mês da Consciência Negra – novembro -, não é um tempo apenas para a “consciência” dos negros, como alguns pensam. Trata-se de muito mais: deve ser um período para a sociedade brasileira refletir sobre si mesma, sobre os seus valores fundantes e, sobretudo, sobre como os diversos grupos étnico-raciais são inseridos no campo da cidadania no país.

Foi trabalhoso para o Movimento Negro quebrar as festividades do 13 de Maio – data em que se tecia loas a uma liberdade que não foi sucedida por uma cidadania efetiva –, transferindo para Novembro, mês em que Zumbi dos Palmares pagou com a vida o sonho de uma efetiva liberdade há 321 anos.

Nos idos do século 17, os Palmarinos enfrentaram com lanças de pau os canhões dos bandeirantes paulistas. Isso após viverem uma efetiva república socialista natural por cerca de um século. Estou falando dos séculos 16 e 17. Marx nasce, desenvolve sua teoria e morre num único século – o 19 -, mais de 200 anos depois de Palmares. A mais longa experiência socialista – a soviética – durou 70 anos e deu no que deu: Vladimir Putin.

O racismo, a hierarquização étnica, as desigualdades – profundas – raciais, tornam o Brasil um baluarte renitente das desigualdades no mundo. Tão vastas que nos tornam uma república indecente. São injustiças naturalizadas pelo que o País se tornou.

Ao ser inserido no Panteão dos Heróis Nacionais, Zumbi é, finalmente, reconhecido pelo autêntico sentido de sua vida: a libertação da maioria da população que vivia no Brasil naqueles tempos – um herói autêntico, martirizado em prol do coletivo. Zumbi foi um herói regatado a duras penas pelo Movimento Negro. Um “negão pesado”, como brinca Sueli Carneiro, até ser posto onde devia estar desde sempre.

Não foi fácil transferir uma data já consagrada como o 13 de Maio para o 20 de Novembro. Neste dia é feriado em capitais como Porto Alegre, Curitiba, Rio e São Paulo; mas não em Salvador – a Roma Negra!

Negras e Negros em Movimento

Durante todo esse mês o Brasil profundo comemora Zumbi e reflexões importantes são feitas. Temos desfiles de moda, capoeira, shows musicais, saraus poéticos; enfim: toda a gama da rica cultura negra brasileira impregnada por todos os poros da nação. Temos ainda debates frutíferos sobre cidadania: violência, feminismo negro – um dos mais promissores debates desse início de século – e empreendedorismo.

Todavia, o principal debate que eu impulsiono é o do desenvolvimento. Não apenas eu, mas um número expressivo de ativistas – especialmente gente jovem. Desenvolvimento como instrumento para a cidadania de todos; evidente. Porque crescimento econômico o Brasil já experimentou e excluiu a população negra com zelo. Esse debate precisa ser aprofundado num momento de regressão de direitos. Proporcionalmente, os negros pagam mais impostos – nem todos sabem disso. Por outro lado, não há retorno em políticas públicas – especialmente na manutenção de creches, escolas infantis e ensino básico em período integral – temas que não podem mais sair de nossa agenda. Reparem que a nossa reflexão segue na contramão do estado mínimo que está sendo presentemente defendido e executado.

Termino esse texto do 20 de novembro com uma pergunta: O que Zumbi – um estrategista nato – faria para defender o povo negro num momento como o que estamos vivendo?

Não ouso sugerir a resposta, mas asseguro que em sua ação os palmarinos não abririam mão das Tecnologias da Informação e Comunicação – as TICs –, instrumento com o qual eles não contavam no século 17. O Brasil é uma País de dimensões continentais e em todo ele há negras e negros em profusão. Porém, essas tecnologias teriam de fluir num sentido comum e organizado, independentemente da área em que se estivesse atuando.

 

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