AS POLÍTICAS DE AÇÃO AFIRMATIVA COM FOCO NA EQUIDADE RACIAL FARÃO COM QUE AS ORGANIZAÇÕES SE PAREÇAM MAIS E MELHOR COM O BRASIL, Por Helio Santos

Conquistar diferencial competitivo tem sido uma procura constante das empresas. No entanto, obter recursos que a concorrência ainda não alcançou tem a ver, cada vez mais, com a gestão de pessoas. Em larga medida, isso se deve à difusão tecnológica equânime entre os concorrentes, restando aos colaboradores o papel definidor para o alcance da ansiada vantagem competitiva. A implementação de políticas que valorizam a diversidade é uma das principais estratégias contemporâneas para a consolidação do sucesso das organizações, sendo mesmo um “fator obrigatório” para tanto, como preceitua Peter Druker29. O conceito de diversidade se origina na biologia, que, como se sabe, estuda os seres vivos. Impressiona como essa ideia é adequada ao mundo corporativo. As empresas nascem, crescem, amadurecem e também podem sofrer obsolescência, adoecer e mesmo fenecer, como os sistemas estudados pelos biólogos. É sintomaticamente crucial o fato de que, tanto para a biologia como para os estudos organizacionais, a ideia de diversidade seja tão pertinente. Dados revelados por esta série de pesquisas Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas evidenciam, desde 2003 até hoje, uma baixa participação negra nas organizações do país. O Censo de 2010 constatou que 51% da população brasileira é negra (pretos e pardos). Sendo assim, debater criticamente a valorização da diversidade étnico-racial é fundamental para compreender o Brasil e as desigualdades estruturantes que guarnecem o quadro social que nos singulariza perante o mundo globalizado.

Não se tem notícia, até o presente momento da humanidade, a respeito de um país que tenha consolidado um desenvolvimento sustentável desperdiçando os talentos de que dispõe. Pelo contrário: nenhuma nação pode, impunemente, desperdiçar talentos – quaisquer talentos. Por outro lado, há uma invisibilidade da temática étnico-racial nas organizações brasileiras, que têm um peso cultural poderoso no que diz respeito ao não aproveitamento de negras e negros em seus quadros de colaboradores. É fácil compreender o impacto desastroso dessa inércia, considerando que somos um país de maioria negra. Uma das providências preliminares para essa síndrome é reconhecer que existe uma efetiva dificuldade para a inclusão qualificada de negras e negros no mercado de trabalho. Há estudos relevantes que evidenciam a prática da discriminação racial – a discriminação ocupacional (que questiona a capacidade do negro) e a discriminação pela imagem, quando a empresa idealiza um perfil em que o negro não deve estar presente. Uma das maiores riquezas intangíveis do Brasil é sua etnicidade múltipla, que se deve a eventos históricos diferentes: a negro-africana teve caráter compulsório, a europeia foi estimulada pelo Estado e a indígena é remanescente. Não faz sentido, em termos estratégicos, optar-se pelo uno quando se tem uma estrutura diversa e rica que se coloca como vantagem competitiva perante vários países que não dispõem desse componente reclamado por Druker. O desenvolvimento econômico requer mais do que slogans. O conceito contemporâneo de desenvolvimento deve pontuar quais são os beneficiários do crescimento econômico e não pode perder de vista o custo de oportunidade que se paga por desperdiçar talentos. As políticas de ação afirmativa com foco na equidade racial farão com que as organizações se pareçam mais e melhor com o Brasil, que ganhará em inovação e complementaridade. Não adianta só as empresas fazerem o melhor. É preciso fazer o melhor da melhor maneira, incluindo no portfólio dos produtos e serviços desenvolvidos no país um insumo necessário nesse milênio que se inicia: o da qualidade ético-moral.

Helio Santos é doutor em administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), consultor em responsabilidade social, professor-convidado da Universidade Estadual da Bahia (Uneb) e presidente do Conselho do Fundo Baobá para Equidade Racial.

Veja artigo e pesquisa Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas

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