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Imagine uma pessoa que vem ficando feia e deformada, mas que não vê a própria imagem há muito tempo e, de repente, tem à sua frente um imenso espelho! Ao ver a sua cara horrorosa dá um grito assustador; não se reconhece e se desespera com a feiura ali estampada. Pior (ou melhor, no caso), não se conforma com aquela imagem absurda e se revolta por ter de suportá-la.

Foi precisamente isso que está acontecendo no país. Essa “pessoa” é a representação parlamentar dos milhões de brasileiros na Câmara dos Deputados, flagrada pela TV durante a votação da aceitação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Congresso Impeachment

É necessário esclarecer que esse torpor nacional não se restringe aos telespectadores-cidadãos que estão contra o impeachment. Diversas pessoas a favor do golpe em andamento também não se viram representadas pelas deputadas e deputados. De fato, não há golpe quando se observa o ritual que vem sendo celeremente seguido por Cunha e ad caterva. A essência do golpe está nas razões apresentadas. Há ainda o fato escabroso desse processo ser liderado pela dupla Cunha/Renan. Entretanto, cada vez mais, mesmo em setores próximos ao governo, há quem pense em novas eleições.

Existe parlamentar de todo tipo, como se sabe, mas não há um sequer que não tenha votos. Todas e todos foram eleitos de acordo com as regras que estão colocadas pelo jogo político do país, as quais não comento aqui agora.

Para os da minha geração, que durante a ditadura militar lutaram por um congresso livre, ao constatar hoje o que move a grande maioria parlamentar, revela-se um quadro particularmente frustrante e doloroso.

Entendo que grande parte do parlamento – brega, conservador e mal formado –tem, sim, muito a ver com o Brasil profundo: machista, racista, homofóbico, e preconceituoso. Todavia, ter visto ao vivo o que realmente somos; chocou e comoveu corações e mentes.

A sessão daquele domingo (17) na Câmara dos Deputados permitiu que, de repente, como numa onda catártica, as pessoas se percebessem a descoberto em termos de representação. Na semana seguinte várias pessoas amigas e conhecidas diziam em uníssono: “algo precisa ser feito; não é possível manter essa situação”. Ou seja: não se pode crer no deputado Tiririca que na campanha que lhe rendeu mais de 1 milhão de votos bradava: “pior que está não fica”.

O voto é um instrumento construtor de cidadania que temos aplicado muito mal, aqui no Brasil. O grande Nelson Mandela negociou quase tudo para resgatar a África do Sul do apartheid, menos numa exigência que ele jamais abandonou: “um homem; um voto”. Por se tratar da África do Sul, país de maioria negra, ele estava afirmando que negociava, mas não abria mão do poder.

Para que se entenda como a representação no País é falha, basta lembrarmo-nos que o maior segmento populacional é o das mulheres negras – precisamente o grupo mais vulnerável da sociedade brasileira.

Algo está muito errado e não temos porque duvidar de uma melhora para um futuro próximo. Primeiro, tem-se o torpor e em seguida o bom senso exige ação.

A força da grana pode ser quebrada por redes que engendrem uma atuação não partidarizada, mas contemporânea e progressista no sentido de se construir uma mudança radical na representação parlamentar nesse Brasil de carne e osso: injusto e quase surreal.

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