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Se há um defeito que a sociedade americana não tem é a de recusar a boa polêmica, quando direitos são infringidos. Ela tem defeitos, como todas as demais sociedades têm, mas é extremamente sensível no campo dos direitos civis. Denuncia e enfrenta sem medo: racismos, crimes ambientais, homofobias, violências – essa lista não tem fim.

Dois anos seguidos sem que nenhum negro/a tenha sido indicado/a para o Oscar foi o suficiente para que atores, atrizes e diretores negros reclamassem da Academia de Hollywood. Afinal, são 20 indicações por ano; o que perfaz 40 indicações sem que nenhum negro tenha sido lembrado. O comunicado de Spike Lee em seu Instagran: “nós não podemos apoiar isso…”, foi a senha para que diversos outros fizessem coro com ele na direção do boicote. Will Smith e sua mulher Jada se sentiram “desconfortáveis em participar e apoiar o evento” – eufemismo descarado do casal.

Faz sentido a reclamação. Explico-me: costumo aplicar um teste ao ficar “sapeando” na TV por assinatura as dezenas de filmes que são exibidos simultaneamente e me impressiona a quantidade de participantes afro-americanos. Nos EUA os negros são minoria: cerca de 13% da população. Impressiona a quantidade, e a respectiva qualidade, desses profissionais. Os escritórios de Hollywood são muito sensíveis à lucratividade dos filmes. O talento negro no campo artístico – música, dança, teatro, cinema – dá lucro. Ninguém age por benemerência nesse campo. Trata-se de business.

Sendo assim, a indústria de Hollywood é atenta aos artistas negros que já estão boicotando a premiação do Oscar deste ano.

Hoje, já se lê na imprensa brasileira – ela teima em interpretar errado a questão étnico-racial -, besteiras do tipo: os negros são minoria frente aos latinos e têm muito mais indicações para o Oscar do que estes (Folha de S.Paulo, 26.01). Confesso que não sei se é erro ou má fé. Trata-se de uma comparação inconsistente. O protagonismo da população negra lá, se inicia no século 17. Os latinos – brasileiros inclusos – invadem a praia nos séculos 20 e 21! Não se considera o talento e a tradição dos afro-americanos no cinema. O público mundial da 7ª arte aprecia o talento afro-americano.

Tradição & Talento

No passado, atores como Sidney Poitier, Sammy Davis Jr e Bill Cosby, brilharam em filmes inesquecíveis. Depois, teve-se intérpretes do porte de Morgan Freeman, Denzel Washington, Eddie Murphy, Danny Glover, Will Smith, Jamie Foxx, Cuba Jr, Forest Whitaker, Samuel L. Jackson e Idris Elba. Sei que faltam muitos nomes; não posso lembrar de todos. Mas tem ainda o comediante Chris Rock, que deverá ser o apresentador da premiação do Oscar em 28 de fevereiro próximo.

Quanto às atrizes – todas elas maravilhosas -, há um set fantástico com Whoopi Goldberg, Halle Berry, Viola Davis, Lupita Nyong’o, Kerry Washington, Stacey Dash, Rosario Dawson e muitas outras. Não devo esquecer de duas atrizes bissextas que fizeram imenso sucesso nas telas (de fato, são grandes cantoras): Beyonce e Whitney Houston.

O boicote proposto ocorre pelo fato de as escolhas não refletirem a qualificação que os negros a duras penas conquistaram ao longo do tempo.

 

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A partir do alto e da esquerda: Bryan Cranston, Matt Damon, Michael Fassbender, Eddie Redmayne, Leonardo DiCaprio, Brie Larson, Saoirse Ronan, Charlotte Rampling, Jennifer Lawrence, Cate Blanchett, Mark Rylance, Christian Bale, Tom Hardy, Sylvester Stallo (Foto: Reuters)

A branquitude nos EUA é menos tolerada do que nessas paragens tropicais. Lá não engolem cotas de 100% para brancos. Quando vi a lista dos 20 indicados, não tive como deixar de associar ao Brasil de carne e osso, onde todas personalidades positivas são brancas sem que se estranhe muito, pois está no “piloto automático” da inércia sócio-cultural do País.

 

O recuo da Academia

 

A palavra-chave para o debate sobre o Oscar é Diversidade. A ameaça de boicote fez com que a presidente da Academia de Hollywood, Cheril Boone Isaacs, que é negra, prometer futuras mudanças. Hoje, cerca de 6.000 associados-eleitores escolhem os nomes premiados para o Oscar, a maioria homens brancos com mais de 50 anos. Prometem duplicar o número de mulheres em busca de maior diversidade, o que não significa salada de frutas porque requer gestão. Chris Rock está reescrevendo o seu monólogo de abertura abordando a baixa diversidade dos premiados – uma autêntica saia justa global que será acompanhada ao vivo por milhões de pessoas em mais de 200 países.

Will Smith, um dos primeiros a reclamar, segundo a revista Forbes, detém o maior salário de Hollywood – cerca de 80 milhões de dólares (320 milhões de reais) recebidos em um único ano. Enquanto isso, aqui no Brasil, muitas vezes, quando um negro começa a ganhar dinheiro e fama ele se acovarda e “derrapa” frente à questão da identidade racial: tem negro boleiro que se diz “branco”; há cantor filho de outro cantor negro que revela ter sofrido preconceito porque é “branco”… Sempre houve e haverá boas exceções – eu sei.

 

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Spike Lee, Jada Smith e Will Smith – Foto: blackFilm.com

Will Smith, sua mulher Jada, Spike Lee e diversos outros afro-americanos não têm do que reclamar quanto ao sucesso, fama e dinheiro. Há muito mais em jogo: exigem reconhecimento e respeito – sabem que têm talento. Há brio também.

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