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O presente ano não vem se apresentando como um período de avanço no campo da cidadania. Pelo contrário: muito já se perdeu e as perspectivas políticas não são as melhores. Uma onda conservadora assola o país e não pretendo descrever aqui as diversas ações que convalidam o pessimismo reinante. Entretanto, a perda do status de ministério da SEPPIR – Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, após 12 anos de existência, e da SPM – Secretaria de Políticas para as Mulheres, foi um petardo de pleno sucesso do campo conservador que sempre viu naquelas instituições o que há de pior. Os mais novos não aquilatam como foi pesado e extenuante firmar a questão racial na agenda deste injusto país. Uma batalha sem-fim. Vencer no STF por unanimidade a batalha das “cotas raciais” e derrotar, no dizer de Sueli Carneiro, o “muro midiático” que se armou contra direitos desde sempre negados. A Marcha de 15 de novembro de 1995 – uma epopeia – com Luiza Bairros, Edson Cardoso, Hédio Silva Jr e mais uma plêiade de talentos de minha geração; gente que nunca teve medo de cara feia e que peitou literalmente o racismo institucional do Brasil. O campo conservador contabilizou seguidas derrotas para os movimentos negro e de mulheres, mas deram uma volta inteira por cima na reforma ministerial do Governo Federal. Os membros daquele grupo, chegaram mesmo a comemorar.

A perda de status de ministério da SEPPIR e da SPM fez com que as mulheres negras perdessem duas vezes. As ativistas negras, especialmente aquelas com maior inserção na luta feminista, sentiram escapar de suas mãos décadas de uma luta quase infinda e sem tréguas ao racismo e ao machismo – vínculos siameses da dialética perversa que opera na contramão da cidadania da mulher negra.

Precisamente no momento que a SMPIR – Secretaria Municipal de Políticas para a Igualdade Racial de São Paulo e o Instituto Ethos desenvolveram pesquisa com foco em gênero e raça na maior cidade do Brasil, tem-se as mudanças nos dois órgãos que cuidam desse tema duplo. Em janeiro de 2016, os resultados acachapantes deste estudo, que junto com Lena Garcia tive o privilégio de relatar, virão à público.

Tanto as mulheres negras, quanto as brancas e amarelas, estão à frente dos homens de seus respectivos segmentos étnico-raciais. Isto se dá, tanto em termos quantitativos como em escolaridade, mas perdem daqueles na ocupação das posições de comando e de maior reconhecimento público. Claro, as mulheres perdem e a sociedade junto perde muito também.

Para aqueles que têm dúvida de que somos ainda uma democracia incipiente, basta lembra-los de que as mulheres negras são o maior segmento populacional do Brasil e são ainda o grupo que detém o menor poder: político, econômico e institucional nos setores público e privado.

Na quarta-feira desta semana (18), em Brasília, vai acontecer A MARCHA DAS MULHERES NEGRAS. Todo o Brasil estará presente. A vasta diversidade do segmento negro feminino vai dizer “presente”: estudantes, operárias, campesinas, quilombolas, intelectuais, lésbicas, jovens, idosas, sindicalistas, religiosas, do campo e da cidade – todas. Vou marchar junto com elas na esperança de que os diversos subprodutos que emergirão desta batalha – alguns já se podem notar – irrigarão esse deserto que vem se tornando a terra brasilis.

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Não há nada mais necessário e justo neste País do que a reivindicação das mulheres negras no que diz respeito às suas especificidades. Há ainda muito racismo no Brasil. Racismo que destrói possibilidades de cidadania, com prejuízos difusos. Entretanto, cabe secularmente às mulheres negras a pior parte deste estigma secular.

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