Sou assíduo espectador do Jornal Nacional da Rede Globo. A novela citada jamais foi vista por mim até o penúltimo capítulo, como foi noticiado, (5/11) e, salvo engano, a mesma é exibida antes do telejornal.Perdido no hotel em São Paulo, num raro instante de ausência do que fazer, decidi deixar o aparelho de TV ligado, mas sem som – pude assim observar apenas o que podia me interessar: as imagens; pessoas e ambiente.

O título acima não tem senso de humor, pois cuida de uma legítima esquizofrenia da teledramaturgia da terra-brasilis. Notam-se aqui a ação e o pensamento desencaminhados. Por um lado, tem-se uma região empobrecida e favelizada, que faz parte da subprefeitura de Campo Limpo na região sul de São Paulo; em que o Censo do IBGE de 2010 reconhece existirem cerca de 48% de pretos e pardos. Por outro lado, a trama reserva para os raros loiros brasileiros quase todos os integrantes que foram desfilando nas imagens – falo dos integrantes da trama, não dos coadjuvantes, como o rapaz que dirige uma Kombi aberta com um locutor (branco) ou do falsificador de passaporte que recebe um bolo de dinheiro, ou da arrumadeira que me pareceu assustada com outra preta – esta sim participava dos diálogos. Pareceu-me ser um personagem histriônico que reencarnava de algum lugar e deve ter sido engraçado. Antes, vi outra atriz negra muito bonita que dialogava com outra atriz, também bonita, loira e havia um bebê num pequeno berço. Nessa cena entra um ator branco com um gorro escuro escrito “Grego”. Era um personagem branco estilizado de “mano”, que mais adiante contracena com outro “mano” – este negro – com mais correntes no pescoço do que o necessário. Importante: reconheci apenas um ator – o genial Lima Duarte que aparece usando um chapéu.

LOVE

Todavia, ao longo das cenas há uma “renca” de loiros – digo loiros verdadeiros; o que, reconheçamos, é raro. Crianças, homens e mulheres de olhos claros. Claro, não tenho o direito de ficar estupefato. Sou conhecedor calejado dos meandros da patologia nacional em sua renitente tentativa de exibir algo que não somos. Temos o múltiplo, o diverso, mas não gostamos de lidar com isso. Os roteiristas confundem diversidade com salada de frutas. Pensam que misturando pessoas estão refletindo o Brasil.. .As tramas precisam trazer nossa diversidade com suas histórias, ondes os personagens de todos os tipos se colocam como são. Simples. Algumas raras novelas conseguem superar este cacoete de identidade. É certo também que o título de uma novela não precisa e nem deve prender o enredo da trama que pode dialogar com inúmeros contextos. Todavia, quem escreveu “I love Paraisópolis”, pensou o tempo todo em “I love Higienópolis”, rico bairro de São Paulo, onde “gente diferenciada” não é bem-vinda.

Também é certo: os roteiristas sabem que mais da metade da população do país (52%) que se autodeclara preta e parda se embevece com essas histórias esquizofrênicas trazidas pela TV.

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