No último domingo dia 16, quando a Globonews mostrava as manifestações contrárias ao governo Dilma pelo país afora, experimentei uma séria dúvida: a imagem da TV era dividida em 4 partes iguais, onde cada quadrado focava uma cidade diferente. Quando Salvador foi mostrada pensei: houve erro da repórter ao citar o nome da cidade. Parecia mais São Leopoldo, cidade gaúcha colonizada por imigrantes alemães. Como se sabe, 82% da população de Salvador é negra (preta e parda), mas na imagem só apareciam brancos – brancos de fato. Sim, vi um único homem negro que parecia estar vendendo água. Uma única alma! Só me convenci de que se tratava de fato da “Roma Negra”, quando vi ao fundo o Farol da Barra, cartão postal da capital baiana.

Foto: Clarissa Pacheco

Foto: Clarissa Pacheco

À medida que ia vendo as demais cidades: BH, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Belém, São Paulo, Jundiaí e outras, constatei que o fenômeno se repetia. Como se sabe também, 51% da população brasileira não é branca, mas este segmento é o que esteve presente nos protestos do dia 16 de agosto por todo o Brasil, inclusive na mais negra das capitais: Salvador.

O que devemos inferir desse singular fato? Algum incauto – e não há falta deste espécime na praça – poderá pensar que os negros não têm do que reclamar! Ora, afinal as políticas neoliberalistas de Joaquim Levy restringiram direitos sociais importantes dos mais pobres, como no seguro desemprego e nas regras para as pensões. Desnecessário aprofundar aqui o que sempre pensei: no Brasil a pobreza tem cor e procedência.

Entretanto, os que protestaram contra o governo não falaram disso! O que se viu foi um grande ato dilmofóbico, sobre o qual já me manifestei aqui antes neste blog. Aliás, não houve uma pauta propositiva no que diz respeito ao desemprego crescente e outras mazelas que deverão atingir as camadas mais pobres, onde os negros são maiorias escandalosas. O que havia era muita raiva de Dilma, de Lula e do PT.

Protestar contra a corrupção que vem sendo revelada me parece positivo, mas a ausência de uma agenda propositiva que puna, por exemplo, a sonegação fiscal endêmica da elite brasileira, me parece reveladora da falta de consistência dos que organizam esses quase piqueniques cívicos. Tancredo, avô de Aécio, dizia que as pessoas podem trair a própria mãe, mas jamais à sua classe. Parece que é o que ocorre aqui.

AGENDA BRASIL

Foto: Blogue Brasil 247

Foto: Blogue Brasil 247

A presidenta Dilma recebeu do presidente do senado – Renan Calheiros – uma lista de propostas que foi apelidada de “Agenda Brasil”. Trata-se de uma pauta que mescla coisas difusas e que atende de forma generosa às reivindicações do mercado. Houve grande movimentação de banqueiros e megaempresários em torno dessa agenda que, dentre outras coisas, cuida de regulamentar o trabalho terceirizado; revisar os marcos jurídicos que regulam as áreas indígenas; acabar com a união aduaneira do Mercosul; regulamentar o ressarcimento dos associados de planos de saúde dos atendimentos feitos pelo SUS e reduzir ministérios e estatais.

A Agenda Brasil avança e o governo vê nela uma estratégia importante para conter a rebeldia da chamada base aliada.

Tenho visto nas redes sociais negros e negras se debatendo e defendendo o governo – o que me parece absolutamente legítimo. Eu mesmo tenho defendido a presidenta Dilma de machistas e golpistas desde o início de seu segundo mandato. A ausência de negros nos atos contra o governo Dilma precisa funcionar como um recado importante: A SEPPIR não pode ser incluída em acordos sob nenhum tipo de argumentação. Seu custo financeiro é baixo, mas sua força e potencial emblemáticos são valorosos e fundamentais num país que tanto retardou em implementar políticas específicas para a população negra. O status de ministério da SEPPIR é inegociável. A população negra tem um imenso crédito com este injusto país. Se há dificuldades orçamentárias cortem onde sempre houve gordura para cortar. Se for o caso deixem de pagar juros aos rentistas. Façam o que quiserem, mas a Secretaria Especial de Promoção para a Igualdade Racial – SEPPIR – ainda tem um trabalho importante a fazer para que o Brasil conquiste de fato a democracia e o desenvolvimento sustentável.

Raros empresários compreendem assim, fazendo uma conexão entre desenvolvimento e cidadania. Em verdade, aquele não se efetiva, precisamente, porque a subcidadania do negro é a marca que caracteriza o Brasil. A estupidez – é claro e também o racismo – de muitos obliteram esse entendimento tão óbvio para quem conhece o Brasil de carne e osso.

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