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Sábado atrasado, dia 11/7, em texto indignado, observei que o programa “Fala Brasil” da TV Record se assemelhava a um “Fala Dinamarca”, pois ostentava um padrão ainda comum em diversos espaços da cena televisiva    nacional: cotas de 100% para brancos. Os comunicadores todos eram brancos – homens e mulheres – inclusive as duas apresentadoras do programa.

Apresentadoras Fala Brasil/ Rede Record: Reprodução

Apresentadoras Fala Brasil/ Rede Record: Reprodução

No sábado seguinte, dia 18/7, o programa trouxe duas apresentadoras: uma loira e outra negra. A dinâmica do programa mudou, pois a Diversidade, dentre outras vantagens, proporciona complementaridade. Os demais repórteres do programa continuaram brancos.

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Fala Brasil: Reprodução TV Record

A comunicadora negra é Salcy Lima, que eu não conhecia. A profissional, além de muita empatia, tem excelente dicção – qualidades necessárias para a sua função. Como a foto acima evidencia, Salcy é também muito bonita. Espero que ela tenha na TV Record as oportunidades que parece fazer jus.

A Record é hoje a principal concorrente da Globo. Nota-se entre as duas redes uma luta pela audiência na TV aberta brasileira. A Globo está muito à frente da Record no que diz respeito às oportunidades dadas aos comunicadores negros – talvez essa seja uma das causas daquela dominar o campo do jornalismo televisivo.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Para melhor explicar este fato, preciso reportar aos anos 1980. Em 1986, participei de uma comissão, arquitetada por Tancredo Neves, cujo missão era desenvolver um esboço constitucional. O grupo era liderado pelo jurista Afonso Arinos. Preciso explicar também aos mais novos que o país vivia um momento político de alta efervescência em que a expressão “Constituinte Livre e Soberana” era mais que uma palavra de ordem, mas uma espécie de mantra nacional. O país se empenhava para sair de uma ditadura militar de mais de 20 anos! Este grupo que recebeu o apelido de “Comissão dos Notáveis” – a única notabilidade que de fato tenho é ter um metro e oitenta e cinco de altura – contava com juristas do porte de Sepúlveda Pertence, Joaquim Falcão, Miguel Reale, José Afonso da Silva e figuras como Jorge Amado, Celso Furtado, Antônio Ermírio de Moraes e Cristovam Buarque, este último à época reitor da UNB. Como membro deste seleto grupo, procurei tirar proveito para melhor trabalhar pela causa racial negra. Uma das ações que fiz foi pedir uma audiência ao senhor Roberto Marinho – já falecido – presidente das Organizações Globo. É fácil imaginar minha pauta com tão poderosa figura: reclamar da mídia pela invisibilidade e péssimo tratamento dado aos negros. Fui advertido pela secretária do “Dr. Roberto” que a audiência padrão era de 20 minutos, mas falamos por quase uma hora. Fui bem recebido na sede da empresa que, salvo erro de memória, era no Jardim Botânico no Rio. Mais ouvi do que falei. Roberto Marinho reclamou muito do rumo das discussões que a Comissão dos Notáveis vinha tendo. A Comissão desenhou um projeto de constituição avançado que, dentre outras coisas, extinguia as Polícias Militares! Para os meus reclamos foi direto: “Isto aqui” está entregue a profissionais, não conheço novelas, mas sou jornalista – afirmou. Confidenciou-me que madrugava no jornal O Globo, onde almoçava. Só à tarde ia para o endereço onde me recebeu. Disse diretamente que o jornalismo da TV era com ele mesmo; o resto não. Indiretamente, porém, me disse mais: no jornalismo de sua TV havia negros, sem precisar dizer o nome de Glória Maria e Heraldo Pereira – dois extraordinários comunicadores há décadas na Rede Globo. As afiliadas da Globo nos estados do Paraná e da Bahia, também há muito tempo, contam com o talento de Dulcinéia Novaes e Wanda Chase, respectivamente. Além das excelentes Zileide Silva e Maria Julia Coutinho – ambas originárias da TV Cultura -, a Globo conta com outros afrodescendentes em sua programação jornalística. Isso se dá ainda na TV por assinatura da Globo – a GloboNews.

Gloria Maria e Heraldo Pereira – Reprodução: TV Globo

Ao longo do tempo, o ativismo negro tem reclamado, com razão, de todas as TVs – da Globo em particular – quanto ao tratamento dado à população negra. Todavia, a TV Record necessita avançar muito neste particular para se aproximar de sua principal concorrente no campo do jornalismo. Quanto ao SBT, nem há o que dizer da invisibilidade. Observação: trata-se de uma TV popular, cuja maioria de seus telespectadores não é branca, certamente. No passado, a TV de Silvio Santos contou com a extraordinária Anna Davies – com o seu cabelo estilo black-power – que encantou a minha geração. Anna foi uma das melhores apresentadoras do jornalismo da televisão brasileira.

REAÇÃO

Somos a maioria do público que vê TV aberta neste país. Temos à frente um desafio para desmentir a ideia de que somos masoquistas. A TV aberta trata mal ao público negro e – o pior – muitas vezes o invisibiliza; o que acarreta danos à identidade e à autoestima.

Conclamo uma reação ao mal tratamento dado pelas TVs: vamos pelas nossas redes sociais organizar um boicote. Nossas redes têm capacidade de sensibilizar algumas dezenas de milhares de pessoas. Se levarmos em conta o efeito multiplicador desse tipo de estratégia será possível reduzir severamente os índices de audiência de determinada rede. Faz sentido um boicote: se determinado canal de TV, trata mal aos negros, também não merece a sua audiência. Mas para que uma ação como esta tenha sucesso é fundamental definir uma estratégia. Não se deve cair na ingenuidade que diz “todas TVs nos discriminam” e por isso propor um boicote geral. Não funciona assim pela simples razão de a população negra ter na TV aberta um entretenimento de fácil acesso. Mas é viável – sim – escolher determinada emissora ou programa. Também pode ser estendido o boicote a um patrocinador que financie algo que opere contra a nossa cidadania. Um dos erros que temos cometido ao combater o “Racismo Cordial” brasileiro ao longo do tempo é o de não buscar alterar o fluxo de caixa das organizações. A força, por mais contraditório que pareça, está do lado, aparentemente, mais fraco: os consumidores. Somos 51% da população. Uma costureira negra – Rosa Parks – há quase 60 anos na cidade de Montgomery no Alabama, provou a eficácia do boicote e começou a mudar a forma dos Estados Unidos funcionar no que diz respeito aos 13% de negros de sua população. O boicote incidiu sobre os ônibus urbanos que eram apartados.

Rosa Parks presa por se recusar a se sentar nos bancos reservados aos negros.

Rosa Parks presa por se recusar a se sentar nos bancos reservados aos negros.

A ideia está em aberto e para funcionar precisa da unidade dos comunicadores de nossas redes – especialmente das redes de mulheres. É um absurdo que ainda hoje a TV não reflita a cara brasileira, que tem na diversidade étnico-racial um valor que a distingue no mundo. Afinal de contas, para quem fala a TV aberta brasileira?

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