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A elite brasileira não tem um compromisso fecundo com o país. Claro, sempre haverá exceções – mas exceções não têm força para fazer mudanças culturais, que são as que interessam. Tais mudanças são as que revertem o machismo, a ganância, o racismo, o egoísmo, a homofobia, a falta de apreço às pessoas e ao meio ambiente. Gostaria de falar hoje com vocês sobre como, aqui no brasilzão, roubos do colarinho branco provocam violências que matam muito mais do que o chamado “menor infrator”. Assim, vou poder responder a uma pergunta formulada aqui em nosso blog no último dia 8, que falava sobre o que se poderia fazer com a grana rapinada pelos poderosos.

A redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, corre célere no Congresso e “pelo andar da carruagem” tem chance de vingar. Há um expressivo número de congressistas – deputados e senadores – denominado “Bancada da Bala”, cuja agenda, além da redução da maioridade, pede a revisão do Estatuto do Desarmamento e outras coisas piores – uma agenda tenebrosa.

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Um dos membros dessa triste bancada – deputado major Olimpio – gosta de fazer contas: das 54 mil vítimas de homicídios no país por ano, 1% – sim 1% – é cometido por menores; o que perfaz 540 vítimas – diz ele em artigo da Folha de S. Paulo de 4 deste mês. Tenho por mim que cada única vida é sagrada. Há que se lamentar qualquer morte violenta – sempre. Isto independe de quem a cause. Em outro artigo, valeria a pena mostrarmos como essa medida é inócua e como ela piora a situação para todos. Mas vivemos numa sociedade violentíssima que busca respostas que nem perto passam da cura dessa verdadeira tragédia brasileira.

No ano passado, cerca de 500 bilhões de reais de impostos – meio trilhão de reais para ser exato – foram sonegados nesse triste e miserável país. Só um dos bandidos do colarinho branco da Petrobrás vai devolver 100 milhões de dólares – cerca de 300 milhões de reais. Recentemente, descobriu-se cerca de 8.700 brasileiros com contas secretas no HSBC na Suíça, por onde circularam em dois anos 7 bilhões de dólares – mais de 20 bilhões de reais! Não é crime ter dinheiro em conta no exterior; tudo bem. Todavia, a natureza humana diz: quem comete delitos tem o ímpeto da fuga.

O major deputado não conhece outra conta que tem a ver com uma violência muito maior do que a das 540 vítimas cometidas pelos menores. Uma APS (Unidade de Atenção Primária à Saúde), instalada em um dos bairros carentes do país, custaria cerca 2 milhões de reais, incluídos os multiprofissionais que lá atuariam por um ano. Nesses locais, boa parte dos exames são feitos e só uma reduzida parte dos pacientes é transferida para hospitais maiores. Na pior das hipóteses, uma unidade dessas salvaria pelo menos uma vida por mês – reparem que as APS atendem a milhares de pessoas nesse período que deixariam de sofrer doenças etc. Mas vamos nos restringir às vidas salvas: cada APS por esse cálculo impediria, por ano, 12 pessoas de morrerem por falta de atendimento médico-hospitalar. Milhares de brasileiras e brasileiros morrem assim. Se apenas um dos 500 bilhões roubados do tesouro nacional – “unzinho” só – fosse transformado em APS, teríamos 500 unidades vezes 12 que é igual a 6 mil vidas salvas. É claro que a bancada da bala e todo o congresso nacional sabem da sonegação e da baixa qualidade dos serviços de saúde oferecidos à população carente. Todavia, esses parlamentares reduzem drasticamente a sua autoridade moral, que já é bem baixa, ao propor punir quem não recebe a mínima atenção de um estado, muitas vezes, conivente com a morte diária de 63 jovens negros (dados de 2012). Para o major deputado, fazedor de contas, quero dizer que falo de, aproximadamente, 23 mil mortes por ano.

Leitora/leitor, resumindo, as manifestações do próximo dia 12 encarariam em sua agenda esse tema? Imaginemos jovens negros levantando a faixa: “ABAIXO A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL”. Uma amiga minha alertou-me com razão. Não daria certo: as mulheres, diante daqueles meninos pretos, esconderiam suas bolsas, haveria confusão e – claro – a polícia entraria em ação imediatamente.

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