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Ao longo dessa semana foram analisadas três séries de fotografias que nos auxiliam a entender melhor o nosso país real, que eu venho chamando aqui Brasil de carne e osso – missão desse blog. A primeira série de fotos comentou o escândalo da Petrobrás; a segunda, cuidou dos protestos anti-Dilma pelo país afora e essa última e terceira série busca obter um flagrante da face do poder no Brasil.

O MINISTÉRIO DO GOVERNO DILMA 

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A foto do chamado primeiro escalão traz, além da presidenta Dilma, seu vice, Michel Temer. Dentre 39 ministros, tem-se apenas 6 mulheres. Alguém poderia argumentar que a figura central da república já é uma mulher. Sim; sem dúvida é um avanço num país comprovadamente machista como o nosso. Mas a participação das mulheres é baixa: cerca de 15% apenas. O talento feminino tem muito mais a oferecer num País desigual como o Brasil. Há apenas uma pessoa negra nesse escalão: a ministra da SEPPIR, Nilma Lino Gomes – conhecida e reconhecida educadora. Num país de maioria negra é muito pouco. No nível federal esse é o quadro.

Como estaria nos estados a participação dos negros? Dentre 27 governadores nem um é negro. Em São Paulo, maior estado da federação, com cerca de 35% de negros, não há uma pessoa sequer desse segmento ocupando cargo no primeiro escalão. No estado da Bahia, de absoluta maioria negra, cerca de 80%, há apenas três pessoas ocupando secretarias. Se analisarmos os principais municípios, não há prefeitos negros. Nas cidades de São Paulo e Salvador, por exemplo, tem-se apenas uma pessoa negra ocupando o cargo de secretário e nos dois casos trata-se da secretaria voltada para a questão racial. Temos em Salvador uma exceção: no primeiro escalão, há ainda a vice-prefeita Célia Sacramento – professora e ativista.

O PODER É BRANCO

Essa ausência do poder revela algo dramático: o eleitor negro brasileiro talvez seja o único do mundo que não elege a si mesmo – renegando assim o poder. Isso não é pouca coisa: é uma contradição que fragiliza uma autêntica democracia. Claro, a população negra pode ser representada por não-negros, mas a sua participação nos parlamentos (nos 3 níveis da federação) é muito desproporcional ao seu tamanho – isto se dá em todo o país.

Se poderá considerar também o fato de a democracia brasileira ainda estar em construção e que as eleições são viciadas etc. Se dirá também, com razão, que o poder econômico distorce a proporcionalidade que eu reclamo aqui, já que a população negra historicamente não pôde acompanhar o enriquecimento dos demais. Outras explicações poderiam ser dadas ainda. Entretanto, o voto aqui é obrigatório; o que significa dizer que o poder exercido no Brasil é delegado para pessoas não-negras em sua esmagadora maioria num País de maioria negra. Essa constatação revela uma disfunção grave na representação democrática.

Por que os programas do horário eleitoral em 2014, em quase todas as candidaturas para o executivo, nos mais diferentes lugares, utilizaram como âncoras mulheres negras? Vale um doce para quem acertar.

Se as maiorias estivessem adequadamente representadas, como convém a uma democracia, caberia ao segmento feminino negro a maior parte do poder; já que ele constitui a maior parcela isolada da população: maior que a dos homens negros, que a dos homens brancos e também maior que a das mulheres brancas.

O Brasil vive hoje um momento em que se discute o aperfeiçoamento das eleições e a reversão das práticas políticas inadequadas à democracia. Há na mídia um frisson nesse sentido. É importante discutir como o poder é acessado pelos setores sub-representados, mas é fundamental também ter claro o que fazer com ele.

Quem está disposto a aprofundar até as suas entranhas a questão da baixa representação feminina, como um todo, nas esferas do poder? E no que diz respeito à população negra?

A melhor resposta deve ser dada pelos próprios segmentos interessados. Afinal, não há brindes no particular campo da cidadania. Poder se conquista; ou você não o tem.

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