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Hoje, dia 16 de março de 2015, mais do que nunca, vou insistir numa tese que defendo já há algum tempo. Reporto-me aos últimos 20 anos, quando um grupo ainda restrito de ativistas colocou na agenda as ações afirmativas para negros – o que acabou sendo apelidado de “cotas”.

O que se vomitou de baixaria contra essa política foi um repertório escandaloso de violência, covardia e injustiça. Reforçou-se ali para mim uma outra tese; a do “crime perfeito”. Os novelistas insistem que não existe crime perfeito porque não conhecem o Brasil. Isto acontece quando alguém de vítima é alçado à condição de réu. Ora, num crime onde vítima e réu se confundem tem-se o “crime perfeito”. Obra prima que só um país especialmente doente é capaz de criar. Os negros, após serem escravizados por 350 anos, acabaram sendo responsabilizados pela sua própria condição subalternizada e pobreza generalizada.

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Entretanto, a tese que me refiro aqui não é a do “crime perfeito”. O que eu estou convencido desde aquela época se revelou ontem com todas as letras nas manifestações anti-Dilma país afora.

Entendo tratar-se do seguinte: qualquer estudioso dedicado que desejar decifrar o Brasil não poderá abrir mão de utilizar uma abordagem de cunho patológico. O sociológico simplesmente não dá conta! Sem isso não dá para entender o país. Nossa história social, nossa cultura de desenvolvimento e nossa peculiar forma de demonizar o outro em razão de nossas próprias frustrações têm de ser considerados de forma mais aguda. Somos um país tropical, escravista, machista e preconceituoso. Profundamente injusto. Não dá mais ouvir falar mal do bolsa família num país da super-bolsa milionária dos rentistas. Perto do que o Brasil paga de juros aos mais ricos, o programa bolsa família, que atende a milhões de famílias, é muito pouco.

Nas manifestações anti-Dilma revelou-se uma sinceridade boa. As pessoas soltaram os seus demônios sem medos.

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Não me refiro só ao soco inglês e outras armas apreendidas dos skinheads, nem só aos palavrões obscenos estampados em camisas. Também não se trata apenas das palavras de ordem de quem não tem uma agenda propositiva, mas apenas quer agredir.

Claro, houve quem fez o que se deve fazer em uma manifestação: reivindicar, protestar e criticar. Faz parte do jogo democrático.

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O que se vomitou de lixo por parte de pessoas que se enrolavam na bandeira do Brasil assustou a algumas pessoas desconhecedoras das lutas mais duras, como a das mulheres, dos negros e do público LGBT, a título de exemplo.

Pedir a volta da ditadura, apoiar o feminicídio são alguns exemplos.

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É mentira dizer que o PT é o responsável pela agenda dos públicos citados acima. Quem se colocou na frente dela foram os movimentos sociais. Alguns partidos absorveram mais ou menos as reivindicações daqueles setores.

Considerando o baixo nível de parte importante das manifestações de domingo (15/3), o efeito anti-Dilma teve efeito contrário. Quem gostaria de ter o apoio de quem pede de volta a ditadura militar? Nesse domingo, o Brasil se revelou um pouco mais para quem não sabia muito da verdadeira alma nacional. No campo psicológico é fundamental assumir os problemas para poder pensar em cura.manif03

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