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Ser radical é ir às raízes que estruturam e justificam as coisas. É também preocupar-se com a força da realidade dos fatos.

O radical, ao contrário dos sectários, pensa e considera como positivas as soluções negociadas quando elas vão ao âmago da questão e apresentam uma possibilidade efetiva de mudança. O sectário; não. Ele ainda não lhe ouviu, mas esteve desde sempre contra as suas ideias, pela simples razão delas não serem as dele! A justeza de suas ideias nada importa para ele.

As cotas raciais discutidas a partir de meados dos anos 1990 se enquadram inteiramente nesse contexto de radicalidade versus sectarismo. Sectários vários perfilaram contra as cotas e perderam feio.

No ainda tímido campo das políticas públicas relevantes do nosso país, as cotas raciais e o subproduto que sua emergência trouxe – as cotas sociais -, são o maior sucesso porque mudaram radicalmente a lógica do ensino superior público funcionar. Até então, a universidade pública não era um lugar receptivo aos negros, aos índios e aos pobres – todos estes vindos da escola secundária pública.

Quebrou-se uma inércia pesada graças ao radicalismo do Movimento Negro que foi às raízes que fundamentavam aquela injustiça. Argumentamos que a universidade pública era paga por todos; questionamos o discurso que falava em mérito num país de longa tradição escravista e por isto racista; ridicularizamos a forma padrão dos vestibulares – no passado, um jogo de cartas marcadas dos mais ricos. Finalmente, alertamos que o país não podia continuar negligenciando os talentos que não provinham do mundo dos bem-nascidos que frequentavam as caras escolas particulares.

Este santo radicalismo, que melhora a vida das pessoas e do país, precisa avançar: boicotes bem organizados devem ser engendrados contra empresas, produtos e organizações que não valorizam os consumidores negros, as mulheres, os homossexuais. As organizações de uma maneira geral têm de valorizar a diversidade e respeitar o meio ambiente tão degradado na terra-brasilis. Os Códigos de Ética dessas organizações têm de deixar de ser mera retórica que não guarda consistência com o cotidiano vivenciado por elas.

A mídia, as PM’s, os governos, os partidos, o poder judiciário e outras instâncias da vida nacional necessitam sofrer a pressão legítima dos radicais, cuja bússola tem de ter o seu foco na equidade, instrumento imprescindível para que se tenha a verdadeira igualdade num dos países mais desiguais do mundo. Para terem autonomia esses agentes devem estar desconectados das tendências partidárias, mas não devem abrir mão de uma ideologia que demarque sua posição: radicalizar na democracia. Tudo aquilo que o Brasil não vem fazendo. Esse movimento ganhará mais força quando aqueles que não têm nada a perder – a maioria – forem de fato às ruas. Como se sabe esse imenso exército ainda não se posicionou na cena nacional para pleitear os seus direitos de cidadania. O Movimento dos Sem Nada (a perder), que eu apelido aqui de MSN, tem potencial para propulsar o Brasilzão, proporcionando ao País um tipo de qualidade nova que pode levar-nos a um novo padrão de civilização.

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