NÃO VOTAR EM BOLSONARO: PARA OS NEGROS UMA QUESTÃO DE AMOR PRÓPRIO

Destacado

A fala do capitão Jair Bolsonaro, candidato do PSL, no programa Roda Viva (TV Cultura em 30/7/2018), CONTRA as políticas afirmativas para negros (apelidadas de cotas pela mídia), foram referendadas em 2012 pelo STF por unanimidade. Todos os estudos – e são vários – confirmam que essa é uma das políticas que mais reduziu a desigualdade brasileira; nosso mal maior. Sou professor há mais de 40 anos e posso afirmar que nossa Universidade Pública melhorou, pois conquistou mais diversidade o que enriquece o ambiente e facilita o desenvolvimento geral. Sei que diversos analfabetos políticos antes de terminarem de ler o texto dirão que é mimimi ou fake. Muitos são cegos de boa-fé, mas não todos. Por isso o link para que se possa ver o programa vai abaixo.

Na ocasião, Bolsonaro insinuou que se estava a “dividir o país entre negros e brancos”. Falou coisas piores como: “o negro não é melhor” e que “não há dívida histórica” e finalmente “passa um sabão” nos negros determinando que estes deveriam estudar. Quanto a dividir o país, o capitão demonstra um brutal desconhecimento (imperdoável para quem quer presidir o Brasil) sobre um sem-número de dados que escancaram essa divisão já posta na sociedade. “O negro não é melhor”; uma verdade. Mas não pode ser também o pior, pois quem vem na condição de escravizado e não na de imigrante já saí em larga desvantagem. Quanto a “dívida histórica” está pontuada ao longo de 354 anos de escravidão. Assusta um ex-oficial do exército ser tão analfabeto em Brasil. Algum tempo antes (3/abril/2017), no Clube Hebraica no Rio, o candidato do PSL se referiu aos quilombolas como se estes fossem animais. Por essa afirmação houve até denúncia de racismo ao STF em que Bolsonaro escapou por um triz.

Duas perguntas preciso fazer e gostaria da atenção de todos, mas em particular dos pretos e pardos (negros):

  1. Com problemas tão graves a serem enfrentados na Educação Brasileira, não lhe parece estranho o foco do capitão em RETIRAR DIREITOS dos negros que o próprio STF assegurou?
  2. Tratar negros dessa forma lhe parece razoável para alguém que pretende ser presidente de um país de MAIORIA NEGRA (54 % segundo o IBGE)?

A primeira coisa que a sociedade brasileira já deveria saber, e em particular a população negra, é que o capitão Bolsonaro é um cão que ladra e morde. Ele e seus seguidores não ameaçam (rosnam) apenas; partem para a ação com destemor. Como exemplo, vejam o absurdo da destruição da placa que homenageia uma mulher negra brutalmente fuzilada no Rio: Marielle Franco.

https://istoe.com.br/candidato-de-bolsonaro-que-destruiu-placa-de-marielle-e-eleito-deputado-no-rio/

Fonte: IstoÉ

Trago para as negras e negros e aos demais grupos étnicos que não compactuam com o RACISMO uma PROPOSTA-CONCEITO: DESVOTAR.

Aqueles que votaram ou que sabem de algum conhecido que votou em Bolsonaro no primeiro turno devem DESVOTAR. Ou seja: mudar o seu voto a favor de um Brasil sem ódios. Para aqueles eleitores negros que forem seus conhecidos, sugiro esclarecê-los com a verdade. Para aqueles que não conseguem votar no PT, apesar do Segundo Turno ser um aglomerado novo de setores e não mais apenas um só partido – peço que anulem seu voto. Nunca fui petista, mas nunca antes exercerei meu direito de voto com mais determinação: votarei no Professor Fernando Haddad, que nesse momento encarna a possibilidade de não mergulharmos num Brasil que será particularmente mais hostil ainda para nós negros.

O que não podemos fazer de maneira alguma é fortalecer o nosso algoz, que a bem da verdade não esconde o seu desprezo por nós – ele e seus seguidores, que já estão se revelando fora do controle. Afinal, a população negra não pode ser confundida com uma imensa esquadrilha de kamicazes. Amamos a vida.

Roda-Viva: https://www.youtube.com/watch?v=lDL59dkeTi0

Anúncios

A ASCENSÃO DOS NEGROS NO BRASIL X O GENOCÍDIO DE JOVENS

Destacado

IMG-20180818-WA0025

Capa Folha de São Paulo publicado em 13/08/2018.

“Quase 500 mil pessoas que se declaram pretas e pardas ascenderam às classes A e B em 2017”. Essa frase de efeito, publicada pelo jornal Folha de S.Paulo do dia 13/8, abriu matéria de capa em que se estranhava tal crescimento em pleno momento de retração econômica. De fato, à primeira vista, chama a atenção, pois naquele ano cerca de 800 mil pessoas foram rebaixadas de seus estratos em função de uma das piores crises econômicas sofridas pelo Brasil. Mais: o fenômeno foi o único positivo entre todas as classes de renda. Ou seja, esse empoderamento econômico de negros e negras corre na contramão do Brasil de carne e osso, como chamo o país real aqui em nossa página.

Por outro lado, noutra direção, 17 dias antes (28/7) o mesmo jornal trazia outra notícia de capa tão impactante quanto a da ascensão de negras e negros. A Polícia Civil de São Paulo descobriu um plano do PCC – o Primeiro Comando da Capital – para recrutar cerca de 1.000 novos integrantes por mês. A campanha do grupo criminoso atende pelo nome de “adote um irmão”. Considerando a realidade das periferias brasileiras, apinhadas de jovens “Nem – Nem” – aqueles que nem estudam e nem trabalham -, o plano do PCC de recrutar 12 mil novos integrantes por ano pode ser considerado modesto. Segundo o Banco Mundial são cerca de 11 milhões de jovens na faixa etária de 15 a 29 anos e que raramente rompem o gargalo do ensino médio. A meta do PCC – 12 mil recrutas por ano – é cerca de 0,1% do número de “Nem – Nem” estimado pelo Banco.  Desnecessário dizer quem é a maioria desses recrutas, candidatos a morrerem antes de completar 30 anos. São jovens oriundos do que denomino “família de risco” – pobre, negra, periférica e geralmente liderada por uma mulher.

Não se reconhece, mas a ascensão às classes A e B, em larga medida, se deve às políticas afirmativas (Cotas Raciais) tão criticadas num passado recente. Em 1997, o grupo que eu coordenei no Ministério da Justiça, fez o primeiro encontro governamental para discutirmos essas políticas. O encontro ocorreu na cidade de Vitória (ES) e contou com especialistas do IPEA, Itamaraty, Ministério da Justiça e Educação, dentre outros. Diversos cenários foram desenhados: eu sempre defendi que as ações afirmativas trariam essa ascensão e que ocorreria  ao mesmo tempo uma onda de racismo mais visível, menos envergonhado. Precisamente o que se dá hoje na cena brasileira, mais de 20 anos depois. Nesse texto breve não cabe avaliar as variáveis que me fizeram projetar esse cenário antagônico. Aqui, o que me parece mais importante destacar é a ausência de políticas públicas para um grupo vulnerável superior às populações do Paraguai e do Uruguai juntas.

 Novas Políticas Afirmativas

 Hoje, a manutenção mensal de um presidiário está em torno de 2.400 reais. Já a manutenção anual de um jovem estudante do ensino médio é de 2.200 reais. Explicando: o custo de um encarcerado por ano equivale ao valor investido em 13 estudantes do ensino médio onde a tragédia dos “Nem – Nem” ganha corpo. Não se investe na juventude, pois prefere-se encarcerá-la depois. O tráfico oferece “oportunidade” real de trabalho com consequências catastróficas para as famílias de risco.

As políticas para esse colapso das esperanças desses jovens devem focar na criação de uma nova escola que propicie competências contemporâneas, período integral e bolsa em dinheiro para a retenção da juventude empobrecida no ambiente escolar. Simultaneamente, são necessárias políticas de apoio integral às famílias de risco, o que não se confunde com o Programa Bolsa Família.

 #NãoVoteNoInimigo

 Acabei de ver agora (dia 17/8) o debate dos candidatos à presidência pela Rede TV. Ninguém tem uma proposta efetiva para a sangria que ceifa as vidas de 63 jovens negros por dia. Qual partido – qual candidato – tem uma pista segura para reverter esse quadro? No passado recente, muitos foram silenciosos em relação ao furioso ataque sofrido pelas cotas raciais na universidade pública – a mais eficaz política pública para reduzir desigualdades no país. Hoje, enquanto as cotas raciais aproveitam os talentos outrora relegados, na outra ponta os homicídios matam 23 mil por ano.

Quem projeta os programas dos presidenciáveis são economistas. Estes seres sinistros jamais tentaram calcular o custo de oportunidade que o país paga por ceifar talentos; o que deveria ser a sua obrigação. A reversão desse genocídio exige estadistas; não tecnocratas que não pensam o país real. Ao que tudo indica, estamos diante de um deserto cuja aridez teremos que enfrentar.

O voto negro precisa funcionar. Eu chamo de “desvoto” o ato de boicotar os candidatos a postos majoritários que não tenham uma pauta específica para a maioria da população. O momento é de organização desse voto – o mais barato do mercado eleitoral, como reconheceu Jânio Quadros há mais de 50 anos. Não faz sentido empoderar aqueles que uma vez eleitos operam com especial zelo contra os seus direitos.

Desigualdade, a marca do Brasil

Destacado

Tags

, , , , , , ,

Nada demarca de forma mais devastadora o Brasil. Ela está em nosso DNA. Muitos falam dela, poucos a decifram. A sociedade brasileira já se acostumou com ela, mas nada chama mais a atenção das pessoas de fora que nos visitam.

O mais adequado seria falar em desigualdades – no plural -; identificando como cada tipo incide sobre a cidadania das pessoas e, muitas vezes, de maneira acumulativa onde múltiplas facetas oneram um único indivíduo.

Antes que algum analfabeto político, praga maior do momento que vivemos, diga que é mi-mi-mi falar sobre o que faz o Brasil ser o esgoto social a céu aberto que é, vale a pena observar como o mundo nos vê. Ou seja: fora do Fla – Flu que se tornou o nosso infeliz debate político.

Por ocasião da Copa que se findou, um âncora da rede CBC do Canadá suscitou uma questão ao “país do futebol”: Foram duas perguntas: “Por décadas, a cada quatro anos, o Brasil envia um esquadrão talentoso à Copa, que reflete sua população racialmente diversificada, mas os torcedores nas arquibancadas jamais o são. Por que isso nunca muda? Existe mudança no horizonte?”

International Friendly - Austria vs Brazil

Seleção Brasileira Rússia 2018

torcida_do_brasil

Torcida Brasileira Rússia 2018

A segunda pergunta deveria ser o foco dos debates num ano eleitoral, pois se refere à maioria da população (55%). Ocorre que somos o país dos sorteios e loterias, mas no campo da cidadania não existem brindes: ou se conquista ou não se tem. Aqui, o eleitor negro (e empobrecido) é o único do mundo que elege os seus inimigos – sem exagero, é o que ocorre.

Câmara dos deputados

Câmara dos deputados

A desigualdade aqui possui 2 vetores básicos: tem cor em decorrência do processo histórico de 354 anos de escravismo, o que estigmatiza a maioria e tem sexo em virtude da feminilização da pobreza. Até o presente momento permanece inédita uma estratégia capaz de sustentar um movimento que faça o gigante Brasil caminhar com sustentabilidade sociorracial – precisamente porque isso significaria correr na contramão do que o País sempre foi e pretende continuar a ser. Uma sociedade que se autoatribuiu limites de forma a deixar amplas parcelas de seus cidadãos e cidadãs de fora. Não se trata de uma desigualdade fortuita, pois foi construída com zelo ibérico.

Claro; há quem veja este diagnóstico como pesado, racista às avessas, e que não leva em conta o mérito etc, etc. O pior cego aqui não é o que não quer ver, mas o que pensa que vê. Mesmo assim não ouso entender essa miopia como de boa-fé.

O agravante aqui são as não-soluções trazidas. Elas veem com as protelações que lembram as vezes em que se adiava a Abolição, até nos tornarmos os últimos a dar fim ao escravismo colonial. Ou seja: o racismo institucional tem um componente inercial que realimenta e fortalece as desigualdades consolidando o que na falta de outro nome denomino Dialética da Exclusão Brasileira. Não há à mão exemplo mais didático do que a destruição dos Direitos Sociais conquistados na CF de 1988. A famigerada Emenda Constitucional 95 não “congela” os gastos como se falou, mas estabelece um teto de gastos do Produto Interno Bruto (PIB) que vai declinando ao longo do tempo. Trata de asfixiar um paciente que já padecia de falta de ar. Todas as análises já evidenciam como esse desastre impactará indígenas e negros.

Ora, nem na Copa de 2014, que foi no Brasil, havia negros nas arquibancadas com ingressos com o preço beirando a um salário mínimo, como observou a CBC canadense. O horizonte indagado pelo âncora será tão menos sombrio a depender da movimentação que formos capazes de engendrar em 2018 e 2019.

FUNDO PARA A CAMPANHA DAS CANDIDATAS NEGRAS

Tags

, , , ,

Apesar do baixo-astral reinante na terra-brasilis, entrei em 2018 confiante: creio que pela primeira vez o Brasil irá decifrar a essência de suas desigualdades. Sem isso não é possível pensar num projeto de nação. As desigualdades aqui são infames e, todos sabemos, elas têm procedência histórica, cor e sexo. Mais: as desigualdades de raça e de sexo demarcam o esgoto social a céu aberto que o Brasil sempre foi, mas que, presentemente, tornou-se uma anomia social-moral insustentável.

Finalmente, parece que a “ficha caiu” para todas e todos! Alguns, aglutinados em seus nichos partidários, foram os últimos a ceder aos fatos: estamos por nossa conta e risco na luta para efetivar as mudanças estruturais desse país racista, misógino, homofóbico, classista – uma verdadeira máquina de moer cidadania. Quem entender que se trata de exagero – sempre há quem queira contemporizar -, considere o congelamento por 20 anos dos direitos sociais; a mortandade genocida dos jovens negros; o retorno de doenças que estavam extintas; o crescimento de 500% do encarceramento de mulheres negras. E, finalmente, a execução de Marielle Franco. A execução de Marielle foi um recado direto ao maior segmento da população brasileira: as mulheres negras. Já havia visto em 18 de novembro de 2015 um avant-premier desse filme: a marcha pacífica das mulheres negras foi recebida a tiros em Brasília. Mulher negra empoderada, reivindicando o seu devido espaço na esfera do poder é algo surreal para uma elite anacrônica e, porque não dizer aqui, também perigosa.

Toda essa conversa é para nos introduzir ao título acima: o STF decidiu que, pelo menos, 30% do Fundo de Financiamento de Campanha das próximas eleições deverá ir para as mulheres candidatas. Cerca de 1 bilhão e setecentos milhões de reais serão distribuídos aos partidos. 30% desse valor terá de ir para o custeio das campanhas das mulheres, cerca de 510 milhões de reais.

Fonte:MDB, PT e PSDB terão mais dinheiro do fundo eleitoral; veja divisão

A EDUCAFRO, com o meu absoluto apoio, entende que a metade desse valor destinado às mulheres nos partidos deve vir para o financiamento das candidaturas das mulheres negras. Ou seja: 255 milhões de reais. 51,8% (mais da metade) das mulheres brasileiras são negras.

Sem esse cuidado na repartição dos recursos, sabe-se que uma posição de neutralidade não alcança o objetivo pontificado pela Ministra Rosa Weber do STF que tomou essa decisão tendo como referência o princípio constitucional da IGUALDADE

Evidente que os partidos políticos podem exceder esse limite de 30% fixados pelo STF, considerando que os homens na sociedade brasileira têm mais acesso aos recursos para financiamento de campanha, fruto do tipo de sociedade que aqui se construiu. Apenas 10% da Câmara dos Deputados são de representação feminina – uma das mais baixas do mundo. Se considerarmos as mulheres negras isso beira à uma participação ínfima. Importante lembrar: as mulheres negras são o maior grupo da população brasileira!

Câmara dos deputados

Câmara dos deputados

Para que se tenha uma ideia de valor: o MDB – maior partido – receberá 234 milhões; o que significa cerca de 70 milhões para as mulheres dos quais 35 seriam para as candidatas negras. O PT, segundo maior partido na Câmara, deveria destinar às candidatas negras da legenda pelos menos 32 milhões de reais dos 212 que embolsará. Pela ordem, o PSDB, transferiria para as suas candidatas negras cerca de 28 milhões de reais. Partidos menores como PSB, PC do B, PSOL e PDT, deveriam, respectivamente, distribuir às suas candidatas negras os seguintes valores: 18 milhões; 4 milhões; 3,2 milhões e 9,2 milhões de reais.

Espera-se que ativismo negro independente cobre das lideranças partidárias, quase todas elas exercidas por homens brancos, eventualmente até judicialmente se for o caso, para que a metade dos recursos destinados às mulheres sejam canalizados paras as candidatas negras da legenda.

Por outro lado, nada nos impede que façamos um FUNDO NACIONAL PARA AS CANDIDATURAS NEGRAS, em que pessoas avulsas poderiam doar de cinco a 100 reais, por exemplo. Agora, já pensando num Fundo que alcançasse homens e mulheres negras. Além dos recursos financeiros, que têm barrado, historicamente, a eleição de negras e negros, uma campanha por fundos traria as famílias negras para o centro do debate. Precisamos gritar ao povo negro: SOMOS OS ÚNICOS ELEITORES DO MUNDO QUE ELEGEMOS NOSSOS INIMIGOS. Para reverter todo esse entulho que desgraçará ainda mais a vida de nossas famílias, como o congelamento por 20 anos dos Direitos Sociais, precisamos eleger os nossos. A maioria da população brasileira, que é negra, vem ao longo do tempo empoderando pelo voto aqueles que, uma vez eleitos, destroem   seus direitos – seja pela ação ou omissão dessa elite eleita.

2018 promete, precisamos utilizar caminhos alternativos e inovadores para alcançar o voto negro – sempre desdenhado pelos donos do poder. Blogueirxs, artistas, ativistas, youtubers, agitadorxs culturais, personalidades, poetas e escritorxs precisamos construir com rapidez uma usina disruptiva para eleger uma bancada relevante de negros e, sobretudo, de negras em outubro próximo.

Um Fundo de Campanha relevante para as candidatas negras pode vir a ser o início de uma virada de jogo. Seria mágico em 01 de janeiro de 2019 termos dezenas de mulheres negras tomando posse num congresso machista e racista. O começo de uma profilaxia política em Brasília.

Marielle-Presente

Marielle Franco

Cotas Raciais na USP

USP Calouros

Calouros USP 2017

Em meados dos anos 1990, antes de qualquer outra universidade do país, a USP tomou a iniciativa de criar uma comissão para discutir o tema das Políticas Afirmativas para negros. Recordo-me bem que dela, com certeza, 3 negros faziam parte: o doutor Kabengele Munanga, então professor da FFLCH-USP; eu, ex-aluno da universidade; e um carioca recém-chegado, Celso Pitta, economista, à época Secretário de Finanças da Cidade de São Paulo. A comissão pioneiramente criada se evaporou e a negativa à adoção das Cotas Raciais passou a ser um mantra repetido por mais de 20 anos.

Foi razoável ter sido a USP a primeira instituição universitária a buscar aquele debate. Afinal, São Paulo, ao longo do tempo, desde a Frente Negra Brasileira nos anos 1930, o MNU em 1978, o Conselho do Negro em 1984, e suas organizações negras que são padrão de referência até os dias atuais, foi uma região que lutou com muito denodo contra o racismo institucional que “legitima” uma cidadania de segunda classe para a população negra no Brasil.

Depois, a própria USP, pioneiramente, ajudara a desmascarar a Democracia Racial com os estudos da chamada Escola Sociológica Paulista, liderados por Florestan Fernandes e Roger Bastide, secundados por estudiosos como Oracy Nogueira, Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso e outros.

A verdade, contudo, é que a USP foi a primeira a propor o debate e a última a implementar as Cotas Raciais, o que se deu no último dia 4, quando o Conselho Universitário da instituição sucumbiu frente aos fatos. Aprovou-se Ações Afirmativas que se darão de forma escalonada até atingir 50% das vagas para estudantes advindos da escola pública – sendo que uma parte destas será destinada aos autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Alegar o risco de perder qualidade foi uma das falácias repetidas. Qualidade, a USP passa a começar a ter agora: qualidade moral. Uma universidade pública precisa refletir a sociedade e aproveitar todos os talentos. A USP nesse tempo todo tem sido uma universidade estatal, agora começa a ganhar características de uma universidade pública, mantida que é por impostos pagos por toda a sociedade.

cursinho emanciapa

Curso Pré-Vestibular Popular

Em abril de 2012 o STF, por unanimidade, já havia respondido àqueles que resistiam às cotas – vitória arduamente conquistada pelo Ativismo Negro e que acabou gerando um subproduto elogiado pela mídia anti-cotista: as cotas sociais, que incluem também brancos e orientais provindos da escola pública.

Outro mantra que se insistiu em repetir foi a alegação do mérito. Trata-se de um sofisma que alega o mérito como doutrina, mas que não afere o que seria esse mérito caso as condições de disputa fossem efetivamente iguais. Há estúpidos – alguns agem de má-fé mesmo -, que supõem que o sucesso dos não-negros é algo naturalmente conquistado, sem levar em conta a política artificial que os favorece.

O BNDES é uma central de Ações Afirmativas (opera com um conceito semelhante) montada para favorecer o empresariado brasileiro, que alega diferenças competitivas com os mercados internacionais – e dinheiro é o que nunca faltou para alavancar o capitalismo sem capital do Brasil.

Depois, ao alegar a excelência como pressuposto e nunca ter conquistado um Prêmio Nobel sequer evidencia a necessidade da USP rever seus conceitos de qualidade. Sempre enfatizo que a seleção brasileira de futebol é majoritariamente negra e que já foi campeã cinco vezes e vice-campeã duas. Na arte da bola, o talento tem de ser provado em campo e não nos biombos corporativos da academia. É que no futebol não se aproveitam apenas os talentos dos bem-nascidos.

berrine2

Avenida Eng. Luís Carlos Berrini

 

A verdade é que a sociedade paulista em particular deve muito aos negros. Quem desejar entender essa afirmação deve ler Café & Negro do historiador Silva Bruno. Nesse ensaio fica nítido como São Paulo constrói sua base econômica que depois o tornaria a “locomotiva do Brasil”, como os paulistas de 400 anos gostavam de se referir. A indústria cafeeira só foi possível graças ao trabalho escravizado em que negros chegavam a trabalhar 16 horas por dia em semanas solteiras. A população escravizada, literalmente, morreu de tanto trabalhar para construir o alicerce econômico de São Paulo. Na Província de São Paulo, negras e negros, se esfalfaram no cultivo do café que capitalizou a industrialização paulista, da qual o negro foi vetado com o advento do trabalho livre e chegada do imigrante europeu. Muito ainda se deve à população negra pelo Estado de São Paulo que até o presente momento não regulamentou as Cotas no serviço público, apesar da Lei correspondente já ter sido aprovada pela Assembleia Legislativa. O que faz o Conselho do Negro criado por nós do Movimento há 33 anos atrás? Quando será regulamentada as cotas raciais no serviço público paulista? Quando? O que está faltando, afinal?

Finalmente, não há como deixar de admirar os editoriais dos jornais paulistas, que, mesmo após todo o sucesso das Políticas de Ação Afirmativas, continuam repetindo suas heresias sem que o chamado OMBUSDMAN dê um pio sequer – isto ao longo de quase 20 anos. Para o editorialista da Folha de S.Paulo (9/7) … ”não faz sentido sustentar que uma família branca tão carente quanto uma negra não deva receber o apoio do poder público apenas devido a sua cor”, revelando todo o seu analfabetismo político-histórico em relação ao país. Os negros estão relegados à condição de “carentes” porque são negros. Os brancos pobres – e os há – são carentes (pobres) por motivos difusos. Não existe um só branco pobre no Brasil que possa alegar para a sua pobreza sua condição de branco.

Graças à luta por cotas raciais, hoje no Brasil, os brancos que vêm da escola pública e de “família carente” têm direito às cotas sociais nas universidades. Estive com o ativismo negro pessoalmente nessa batalha. Trata-se de um subproduto legítimo da luta racial e não de editoriais que contemplam os acontecimentos da cena nacional.

 

A Escória da Escória

Tags

, , , , , , ,

Marcelo

Marcelo Odebrecht

Sergiomachado

Sergio Machado

eike

Eike Batista

joesley

Joesley Batista

As 4 fotos exibem a síntese do que há de pior no Brasil: homens com imenso poderio econômico, mas deserdados da mínima honra. São pessoas que como empresárias deveriam gerar riquezas: produtos, serviços, tributos e empregos. No entanto, lesam a sociedade, pois roubam e fraudam no âmbito do Estado. Quando atuam dessa forma, contribuem para a ruína da sociedade inteira.

Conseguem empréstimos generosos; fraudam as licitações; têm facilidade para obter licenças para explorar serviços públicos, como estradas, portos, aeroportos e meios de comunicação; ganham de presente leis feitas sob encomenda para que eles não paguem impostos e sonegam sem piedade, impedindo que recursos necessários cheguem à educação e à saúde. Vampirizam a cidadania do desgastado povo brasileiro. Retroalimentam as desigualdades num país profundamente desigual. O Tesouro Nacional tem sido a fonte para que suas famílias se tornem bilionárias em detrimento da cidadania.

Tudo isso foi feito, desde sempre, com a ajuda de comparsas do setor público: parlamentares, prefeitos, governadores, presidentes, juízes, ministros. Enfim, agentes que atuam na contramão de sua missão, que é servir a Nação e não se servir dela.

Na gíria da malandragem os que delatam seus parceiros de crime são chamados de “cagoetas” (alcaguetas). Para essa elite criminosa que atua no Brasil temos a Delação Premiada que oferece uma espécie de bônus para quem comete grandes crimes. Tais figuras são condenadas a ficar algum tempo em suas mansões com absoluto e exagerado conforto e sem nada fazer para purgar seus crimes. Sim; é verdade que não podem voar em seus jatos e helicópteros passeando pelo mundo afora, mas restam Netflix, bebida e comida de primeira e algum hobby para se praticar em suas mansões de veraneio.

Lotacao

Quem é mais pernicioso para a sociedade brasileira – o bandido “pé-de-chinelo”, assaltante e muitas vezes homicida – ou o criminoso de colarinho branco?

Ambos são bandidos e devem à sociedade pelos crimes cometidos. Os bilhões roubados e fraudados por Marcelo, Sérgio, Eike e Joesley daria para construir quantos postos médicos e hospitais bem equipados? Sabe-se que as pessoas do Brasil profundo padecem pela falta de exames e tratamentos que impediriam suas mortes – essa tragédia faz parte do nosso cotidiano.

Qual a diferença entre o assaltante homicida – tão temido por todos nós – e quaisquer dessas figuras bem-nascidas do colarinho branco?

A primeira diferença é que no caso do colarinho branco o dono do pescoço também o é. São, geralmente, bem-nascidos, frequentaram boas escolas e são ricos. Às vezes, muito ricos. Têm elevado capital social e viram nessa capacidade de influenciar uma oportunidade de maximizar suas fortunas.

Quanto aos assaltantes, cujos crimes não podem ser minimizados, em boa parte das vezes, têm baixa escolaridade. Vêm de famílias de risco, nasceram na periferia, muitos são negros (pretos/pardos) e viram no crime (tráfico ou roubo) uma oportunidade de ascensão.

Não se deve hierarquizar criminosos. São criminosos e ponto. Em verdade, a ação do colarinho branco, desviando recursos que fomentariam a cidadania, como educação de qualidade e saúde preventiva, acaba contribuindo para a criminalidade dos de baixo. Trata-se de um círculo vicioso rodado a partir da ação das elites corruptas.

O que chama a atenção na diferença entre os dois tipos de criminosos é como os bandidos bilionários não têm o mínimo pudor em denunciar os seus comparsas para livrar a sua cara. A delação tem permitido à sociedade conhecer as entranhas do poder no Brasil. Por outro lado, a prática demonstra que para o “andar de cima” o crime compensa. Sérgio Machado, ex-diretor da Transpetro, gravou até Sarney para se safar. Eike Batista, um dos “maiores empresários” do Brasil (Grupo EBX), antigo camarada de Sérgio Cabral, vai atolar na lama ainda mais a vida do ladrão-governador. E, recentemente, Joesley Batista (Grupo JBS), entregou todo mundo: PSDB (Aécio Neves), PT (Guido Mantega) e gravou ainda Michel Temer do PMDB. Quanto a Marcelo Odebrecht, visto no mundo da delação como a cereja do bolo, contribui para a ciência da administração brasileira pois traz um esclarecedor estudo de caso sobre como ocorre o crescimento empresarial na área da construção civil no Brasil. A ODEBRECHT atingiu a perfeição da bandidagem empresarial ao desenvolver um centro de custos para controlar a corrupção. O pai de Marcelo – Emilio – que o antecedeu na presidência do grupo, entrega a república inteira ao afirmar com destemor: “Tudo que está acontecendo é um negócio institucionalizado”. Mais: explica que os partidos não lutam por cargos, mas por “orçamentos gordos”. O caixa dois, para ele, tão falado nos últimos tempos, é “demagogia” da imprensa, pois é prática que remonta 30 anos.

 

DE QUEM SE ROUBA MESMO NO BRASIL?

Tags

, , , , , , , , , ,

Ainda menino, já ouvia meus pais, parentes e vizinhos reclamarem da “roubalheira” do mundo da política. Falava-se abertamente, como ainda se diz hoje, e lá se vai mais de meio século. Na infância eu já matutava comigo: de quem é que se rouba.

Hoje, posso bem compreender porque se rouba há tanto tempo sem parar. Uma ação continuada, perene, inesgotável, que se reinventa ao longo do tempo, um monstro que se realimenta pela impunidade. Tanto roubo, por tanto tempo, nos induz a um raciocínio elementar: as vítimas têm baixa capacidade de se defender.

Vamos mostrar aqui no nosso Blog que a citada “roubalheira nacional” não se atém apenas ao mundo da política. Tem-se articulações que atuam de forma a estabelecer sólidos consórcios entre a política, o mundo empresarial, a justiça e a mídia. Bastaria um desses elos se desprender para quebrar uma estrutura que deve ser responsabilizada pelo fato do nosso País ser um dos mais desiguais do mundo, a despeito de ser muito rico.

A impunidade é o combustível que toca essa máquina geradora de subcidadania. Explicando: impunidade para homens brancos bem-nascidos ou bem postos na sociedade. Não deixa de ser verdade que a impunidade, nos últimos tempos, vem sendo quebrada em parte, mas se fôssemos prender todos os chamados criminosos do colarinho branco os encarcerados, cerca de 700 mil, teriam que abrir espaços, pois faltariam cadeias.

17016133

Presos rebelados na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte

Algumas personas têm sido presas e após algum tempo, mediante delação premiada, com “direito” à tornozeleira, são liberadas para ficarem em suas confortáveis casas – algumas são verdadeiros clubes – bebendo vinho e vendo Netflix.

Fala-se em roubos e em ladrões, mas quase nunca se fala sobre quem, afinal, é roubado! É preciso demonstrar como o mundo dos negócios e da política se retroalimentam de forma a lesar profundamente grande parte da população ocasionando a subcidadania crônica que maltrata o Brasil profundo, de carne e osso e como a mídia acaba sendo o cão de guarda dessa sinecura secular.

A princípio, rouba-se do Tesouro Público (Federal, Estadual ou Municipal). O Tesouro Nacional sempre foi um cofre aberto para diversos aproveitadores da iniciativa privada em conluio com agentes públicos. Há muito tempo a gestão desse campo tem sido entregue a banqueiros e empresários travestidos de secretários e ministros que mantêm escancarado as burras públicas; espécie de raposas zelando pelo galinheiro. A drenagem de dinheiro se dá pela sonegação pura e simples, pelas concorrências fraudadas e superfaturadas, pelos financiamentos a juros generosos, pelas isenções fiscais seletivas, pela gestão kamikaze das empresas públicas e pelas concessões altamente lucrativas; tudo guarnecido por uma mídia dependente de publicidade (privada e governamental) e de concessões do setor público.

Quando se deixa de recolher impostos pagos pelos cidadãos-consumidores, ou quando uma obra que vale 200 milhões recebe o dobro desse valor, ainda quando concorrências são viciadas, remédios são superfaturados, empréstimos públicos são concedidos com juros generosos a empresas sem nenhum compromisso público ou ainda quando políticos invadem empresas e bancos públicos nomeando “gestores” a soldo de seus interesses, acaba se tendo farta drenagem de recursos (dinheiro público) que vão enriquecer famílias e grupos. Tal enriquecimento que ocorreria em função do próprio sistema capitalista, nesse caso é maximizado de forma a potencializar fortunas da fauna que rouba o Brasilzão desde sempre. Ora esses desvios se dão em detrimento de quem? Quem perde em sua vida por isso, afinal?

teleferico-complexo-alemao-06

Teleférico da Favela do Alemão

Afirmar que o roubo é contra a população brasileira; a rigor não seria errôneo. Porém, o rol de maldades que inferniza a vida dos brasileiros incide de maneira seletiva e não homogênea como algumas narrativas simulam. As creches e escolas infantis não construídas, tão importantes para a formação de uma pessoa, a escola fundamental em período integral, os postos médicos e hospitais de qualidade, as políticas preventivas de saúde, a ausência de saneamento básico – suma vergonha de um país rico -, a ausência de consistentes políticas habitacionais e agrícolas de cunho popular e, finalizando, a absurda qualidade do transporte coletivo são fatores que oneram diretamente aos mais pobres e necessitados.

Como se sabe a pobreza no Brasil tem cor e procedência – todos os estudos internos e externos confirmam isso: IPEA, PNUD, IBGE, Banco Mundial etc. Ainda assim, todo o clamor do dito campo progressista no presente momento de regressão de direitos, quase nunca traz à tona esse singular aspecto que é notado por todo estudioso estrangeiro que se detém a decifrar o País do futebol e das favelas. O que alguns analistas denominam “maioria desorganizada” são os descendentes de escravizados e indígenas. Quando se clama contra o “desmonte do país”, não se identifica os perdedores principais dessa tragédia. As escolas particulares, os planos de saúde, os automóveis e os condomínios onde balas não se perdem, são bens e espaços onde a esmagadora maioria negra não chega, evidenciando que o desmonte é engendrado contra essa massa preferencialmente. O Brasil tem sido reiteradamente saqueado de forma tão impune porque os espoliados erm sua grande maioria são negros (pretos + pardos). Assim como são aqueles que morrem por homicidios e são ainda a esmagadora maioria dos encarcerados no indecente sistema prisional brasileiro.

Fui durante muito tempo um ativista que buscou dialogar com a sociedade – sistema político, judiciário, mídia, mundo empresarial e intelectual -, mas reconheço que chegou um momento de operar noutro patamar. A rigor, na maioria das vezes, estivemos em nossas lutas por nossa própria conta e risco; com o silêncio de parte importante da intelectualidade e partidos, mas sempre com a mídia em oposição feroz.

O desmonte dos direitos sociais feito em escala alucinante: precarização do trabalho, reforma trabalhista e previdenciária, congelamento dos investimentos em Educação e Saúde, são petardos armados contra a já combalida (sub) cidadania negra.

3 Poderes

Três Poderes – Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal

O tamanho do desastre requer considerar a possibilidade de desobediência civil face à completa desmoralização das autoridades que ao longo do tempo usurparam e/ou permitiram que os recursos que potencializariam a cidadania não cumprissem seu sagrado papel. Essas forças em uníssono – não necessariamente acordadas entre si, em covarde, mas não inocente silêncio – produziram um País rico habitado por massas de empobrecidos. A desigualdade é o galardão dessa gente. Eles a produziram com zelo ibérico contra negros e índios. A absoluta ilegitimidade dos entes políticos que presentemente desenvolvem uma agenda regressiva no País (contra os interessess das maioriais) se configura pelo elementar fato de que nenhum deles foi eleito propondo tais medidas. Trata-se de traição àqueles que os empoderaram com o mandato pelo voto popular. Nada pode ser mais nefasto do que isto para uma democracia: o representante operar contra o seu representado.

A população negra representa 53% da população brasileira. Esse público ainda não foi às ruas, mas precisa explicitar que o golpe parlamentar personifica não apenas golpistas, mas, sobretudo, racistas. Temos de construir nossas agendas específicas já. 2018 ainda está longe, mas negros não domesticados por partidos precisam se posicionar radicalizando na democracia que nunca existiu em Pindorama. Nossa agenda tem de influenciar as políticas macroeconômicas. A juventude e as mulheres têm de estar no centro desse embate em virtude de serem os sub-grupos mais vulneráveis em nosso segmento.

Como sempre intui: somos os derradeiros subversivos do Brasil. Temos de construir uma nova ordem onde a igualdade de oportunidades seja a essência do regime a ser conquistado. Mais uma vez seremos parte da solução, jamais o problema. Vamos democratizar o Brasil.

black youth

Vamos democratizar o país?

A FÉ NO MERCADO

Tags

, ,

“Será razoável o Brasil gastar com aposentadorias o mesmo percentual do PIB que o Japão, um país de idosos”? A pergunta, feita por um economista com espaço em jornal de largo alcance, procura sugerir que os gastos com a previdência são insuportáveis diante das contingências fiscais do País (Folha de S. Paulo, 28/3/2017, p. A9). À primeira vista, sobram-lhe razões. Há déficit crônico da previdência, explicando esse evento contábil, simplificadamente, pela equação: Receitas (-) Despesas = Menos que Zero; já que as Despesas – essas vilãs – suplantam em muito as Receitas, que são um termo daquela equação jamais tocado pelos chamados, eufemisticamente, “economistas pró-mercado”.

Elites Anãs

Certos economistas impressionam pela erudição vazia de conteúdo em que se leve em conta a crua realidade brasileira, outros nos assustam pelo olímpico analfabetismo em história social do Brasil. Para alguns outros, contudo, não se deve debitar ignorância, pois têm notório compromisso com instituições que se beneficiam de suas “análises”, onde são regiamente pagos. Todavia, há um grupo que cultua uma fúria certeira, o qual, na falta de outro nome, denomino aqui em nosso blog de “religioso”. Trata-se de uma seita que nada tem de caduca. Tudo a ver com o Brasil-potência, ferido por uma incúria que, de tão antiga, ameaça gangrenar gravemente a nação gigante, mas, desgraçadamente, anã de elites capazes de agregar valor às suas imensas riquezas naturais e humanas. Evidente que existem importantes exceções e linhas de estudo que transitam na contramão da crença daquele grupo. Percebe-se a “fé” desse grupo quando seus membros, diante da reivindicação por direitos num País escandalosamente desigual como o Brasil, afirmam, não inocentemente: “De onde sairão os recursos para isso, ninguém sabe.” Percebe-se que há, de fato, fé, mas é má-fé; neste caso, eivada de preguiça.

Berrine Favela

Novo centro financeiro de São Paulo – Av. Luís Carlos Berrini e Comunidade de Heliópolis

1,6 Trilhões roubados em 4 Anos

Os procuradores da Fazenda Nacional estimam que cerca de 1,6 trilhão foi sonegado nos 4 últimos anos: 2013 (415 bilhões); 2014 (500 bilhões); 2015 (420 bilhões) e 2016 (275 bilhões). Trata-se de uma cifra escandalosa ante a penúria vivida pela Saúde e Educação no País. Há quem especule que os 1.600 bilhões de reais são apenas a ponta do iceberg da rapinagem doentia em que o País sempre esteve imerso. O fato dessa variável (tributos não pagos) não ser considerado por aquele grupo de fiéis, quando se discute a crise fiscal, não se deve tanto à desídia, mas mais à ideologia mesmo. Em 2017, até o presente momento, estima-se uma sonegação de 144 bilhões de reais.

Screen Shot 2017-04-06 at 10.24.15

Pato da FIESP – São Paulo – SP

Tais “religiosos”, apesar de economistas, desconhecem aspectos triviais do fluxo financeiro-contábil, pois sempre são pegos na crença de que empresários “pagam” impostos, quando estes, em verdade, os recolhem. Impostos são pagos pelo consumidor da mercadoria, produto ou serviço vendido pelas empresas, cuja composição do preço inclui os tributos. Quando estes não são recolhidos, a margem de lucro é ampliada indevidamente. O consumidor-cidadão, quase nunca lembrado por essa seita, perde duas vezes: primeiro, quando paga os impostos cobrados no preço que, sonegados, não retornam como investimentos públicos – saúde e educação, sobretudo –, e perde de novo pela ausência da dinâmica econômica que tais valores bilionários causariam caso não fossem transformados em “Caixa 2”.

mapa

Brasil um Imenso Caixa 2

A sonegação fiscal é a artéria principal que abastece o modelo moral incrustado na cultura da economia brasileira, conhecido pela alcunha de “Caixa 2” – tão falada em época de Lava-Jato, mas que é abordada apenas no circunscrito espaço do financiamento de campanhas políticas. A verdade é que o Brasil, quase todo, é um imenso “Caixa 2”. A sonegação opera na contramão do que se convencionou chamar de Responsabilidade Social Corporativa. Recentemente (2016), cerca de 157 bilhões foram repatriados (criou-se um eufemismo para esse jogo: Regime Especial de Regularização). Trata-se de ativos (valores, bens) existentes em outros países que não foram declarados pelos seus titulares brasileiros (não interessa aqui, agora, explicar como esse lapso aconteceu!). Nova oportunidade foi dada em 2017 a esses brasileiros “esquecidos” e se estima repatriar mais 85 bilhões de reais.

Apesar de o Brasil fazer parte do seleto grupo dos 10 países mais ricos, pratica-se aqui, historicamente, um rebaixamento dos salários. Ainda assim há quem entenda que as leis trabalhistas encarecem a contratação gerando desemprego e informalidade. Nunca se aprofundaram, honestamente, nas razões dessa reserva de manobra representada por exércitos de subempregados e trabalhadores precarizados pelo capitalismo predatório que se optou fazer aqui no Brasil – processo que se acentua gravemente no momento atual.

A pergunta feita no início deste texto, quando se compara o Japão ao Brasil, exibe um nonsense imperdoável, mesmo para quem o cometa em nome de uma fé, como parece ser o caso. Além de sermos 23 vezes maiores que o Japão, que possui 63% de nossa população, dispomos aqui no Brasil de uma capacidade ociosa exuberante – de tudo: água, terra, recursos minerais, reserva florestal (a maior do planeta), mar, potencial eólico, sol e gente que sempre respondeu positivamente quando teve oportunidades.

O Custo de Desperdiçar Talentos

Os “religiosos” brasileiros continuarão distantes de um Nobel de Economia como o diabo da cruz, enquanto não se empenharem em estudar, por exemplo, o custo de oportunidade que o país paga por desperdiçar talentos. Tal tipo de esforço acabaria por revelar algo inimaginável pela seita: o que ela diagnostica como problema é, em realidade, parte importante da solução! A equação de soma zero que usam para explicar o Brasil vale para o Japão com recursos e espaços no limite. Lá, não seria possível potencializar economicamente dezenas de milhões de pessoas como precisamos fazer aqui.

Para decifrar adequadamente o Brasil há que se estudar nossa cultura de desenvolvimento, que exibe a assimetria tosca vivida pelo País que produz os melhores jatos de porte médio do mundo, mas que convive ainda com as chamadas “doenças de pobres”: diarreia, dengue, chikungunya, zika, tuberculose, esquistossomose, febre amarela, de Chagas, e outras, muitas delas já extintas em países avançados que compram nossos aviões.

Mosquito jato

Jato da Embraer e o Aedes aegypti

 

A Prioridade é a Equidade, Estúpidos

O artigo publicado no jornal citado conclui puxando as orelhas dos invocadores de direitos: “Não dá para dar tudo a todos…” – reclama em tom grave. Quem disse que “todos” necessitam de “tudo” nestes trópicos corrompidos? Esta assertiva merece ser marcada como a suma platitude destes tempos bicudos da inteligência nacional. O texto ensina-nos ainda a “elencar prioridades e medir consequências”. No Brasil, a prioridade não deve estar nessa fé cega no mercado, mas na equidade, estúpidos! Ela é quem dá lastro ao desenvolvimento sustentável nos países de ponta, com IDH acima de 0,90, e só é possível obtê-la com igualdade de oportunidades. Não há mágica no campo da cidadania, assim como a seita nos ensina que “não há almoço grátis”!

Branco No Brasil: Desde Sempre Levando Vantagens

Tags

, , , , ,

screen-shot-2017-01-23-at-15-52-00

Ser branco no Brasil, afinal, propicia vantagens – ou não – ao titular da branquitude? Bom lembrar: a rigor nem precisa ser branco segundo os padrões europeus, basta ser “socialmente branco”, como se dá na terra-brasilis.

Filme que rodou na Web, “bombou” nas redes ao trazer de maneira humorística a branquitude brasileira, mostrando os brancos se “dando bem”.

Screen Shot 2017-01-23 at 15.57.29.png

Em 2002, ao ser entrevistado no Programa Roda-Viva da TV Cultura, por afirmar algo parecido, fui bombardeado por todos: entrevistadores e telespectadores. No final do programa me foram entregues, em papel, centenas de perguntas desaforadas. Quase 15 anos depois muita coisa mudou: o STF por unanimidade se manifestou a favor das cotas raciais. Políticas foram implementadas no sentido de reduzir as vantagens que por décadas o Movimento Negro denunciou. O citado programa pode ser visto neste link: https://www.facebook.com/brasildecarneeosso/videos/1050963684962024/

Assim, em tese, o país já sabe que os brancos levam vantagens – sim. Essa defasagem histórica se instala aqui no momento que os portugueses começam a explorar essas plagas: 1534. O vídeo erra quando diz que os brancos levam vantagens “Há mais de 500 anos”, pois são precisamente 482 anos. Muito tempo.

O esquete que será exibido pela Globo no dia 24 já é um mega sucesso com quase 3 milhões de visualizações. Ao ler os comentários percebo que após 15 anos, apesar das mudanças ocorridas, permanece uma desinformação   alucinante sobre a questão das desigualdades raciais. Causa-me comoção ao constatar tanta estupidez política por parte de brancos e também de negros a respeito.

Não há como negar a “qualidade técnica” daquela produção: personagens, interpretação e enredo. É precisa a utilização do segurança (bem preto) travando a entrada de uma mulher negra. Há casos de assassinatos. Em 2006 numa agência bancária do Rio um segurança negro atirou e matou um cliente igualmente negro. O serviço de segurança – mal remunerado e de baixo status profissional – é uma atividade exercida majoritariamente por homens negros.

screen-shot-2017-01-23-at-15-55-50

Por outro lado, é marcante a apresentação da mulher branca afirmando as “vantagens” das quais ela o tempo todo se faz usuária. Marcante também o fato de o homem branco de meia idade reafirmar ser sempre o mais bem remunerado. Vê-se, ainda, mulheres negras em funções subalternizadas. De fato, a hierarquização exibida no vídeo é a mesma que os estudos revelam: primeiro o homem branco; depois a mulher branca; em seguida, o homem negro e, finalmente, a mulher negra.

Screen Shot 2017-01-23 at 15.54.25.png

Há um volume considerável de estudos que mostram o custo que se paga por ser negro no Brasil. Desde meados dos anos 1970, Nelson do Valle Silva e Carlos Hasenbalg demonstravam, quantitativamente, as diferenças resultantes das vantagens de brancos sobre negros.

A questão do vídeo desenvolvido pelo grupo “Tá no Ar”, liderado por Marcelo Adnet, é que sempre restará uma dúvida grave. Por se tratar de um grupo teatral que trabalha bem com a sátira, caberia as perguntas:

1.Trata-se de humor que escracha a posição do ativismo negro que utiliza esse argumento para propor políticas públicas?

2.Ou o “Tá no Ar” faz uma crítica denunciando as desigualdades raciais resultantes do racismo, contrariando a linha do humor que sempre se fez na Globo?

Pela foto, o grupo de humor “Tá no Ar” com seu diretor, que opera num país de maioria negra, “Tá na Dinamarca”.

elenco-ta-no-ar

A repercussão do filme me confirmou uma ideia que tenho defendido há muito tempo: a batalha contra o racismo precisa utilizar mais da tecnologia da comunicação – TV, WEB, cinema – para ter maior eficácia. Não adianta só reafirmarmo-nos como maioria, precisamos também de operarmos como tal. O empoderamento, tão falado e repetido, além de estar em nossas consciências, precisa repercutir de forma que produza cidadania. Os caminhos são vários: participação política, direitos múltiplos, renda – equidade, enfim.

O desafio da luta antirracista, que busca empoderamento cidadão, passa pela comunicação pois, além do racismo institucional enraizado na sociedade – os comentários feitos sobre o filme confirmam esse quadro -, o Brasil é um imenso continente com 5570 cidades. Muito precisa ser feito, dito e demonstrado de forma didática, com ou sem humor.

Bonecas Adunni

Tags

, ,

black-kids-hairstyles-1

A doçura chegou ao lar; esse o significado de ADUNNI!

As bonecas acabaram de ser lançadas em todo o Brasil.

Na Internet, as bonecas pretinhas do Fundo Baobá se encontram esgotadas, mas há mais 240 lojas físicas da RiHappy em todo o País.

Todos temos filhas, sobrinhas e afilhadas a quem devemos presentear de forma a desenvolver a identidade e a autoestima das nossas meninazinhas.

No passado, eu enfrentei esse problema com minha filha. Resultado: ela não ganhava bonecas, pois todas eram loiras de olhos azuis…

O FUNDO BAOBÁ PARA A EQUIDADE RACIAL tem uma participação no faturamento da venda dos brinquedos e participou do desenvolvimento da ideia junto aos fabricantes. Esperamos, para o futuro, pensar em outros tipos de brinquedos que contemplem também os meninos. Também esperamos desenvolver bonecas pretinhas com perfis que contemplem os diversos estilos da preciosa estética da mulher negra contemporânea.

Compartilhem e nos auxilie a divulgar a chegada da doçura em nossas casas: ADUNNI!

image005image001image003image004image002